Na mais recente carta enviada por Jeff Bezos aos accionistas da Amazon, o CEO da gigante de comércio electrónico não recorre às histórias, metáforas e lições de liderança habituais. O discurso inspirador que tornou estas cartas conhecidas no mundo dos negócios foi substituído por palavras mais cautelosas e por uma divulgação factual daquilo que a Amazon está a fazer no contexto actual de pandemia.
Especialistas ouvidos pelo Business Insider consideram que Jeff Bezos está a perder o brilho na sequência do crescente escrutínio de que a sua empresa é alvo – tanto por parte da imprensa como dos reguladores. A mais recente carta anual aos accionistas, publicada desde que a Amazon entrou na bolsa em 1997, parece-se mais com um comunicado gigante em que são enumerados os passos dados pela companhia no sentido de apoiar os seus colaboradores e parceiros.
Segundo os especialistas citados pela mesma publicação, a carta do ano passado já dava alguns sinais de mudança, mas o COVID-19 terá sido mesmo o ponto de viragem. «É uma carta muito aborrecida», diz Paul Argenti, professor de Comunicação da Dartmouth College: «Mostra que Bezos tem problemas maiores com que se preocupar.» Na sua opinião, apenas Warren Buffett (Berkshire Hathaway) e Jamie Dimon (JP Morgan) ainda conseguem escrever cartas inspiradoras.
Anand Sanwal, the CEO da CB Insights, concorda e justifica a mudança de tom com as dificuldades e desafios que a Amazon enfrenta. De acordo com o responsável, uma linguagem menos exuberante poderá ajudar a evitar atenções desnecessárias – especialmente numa altura em que a Amazon está no centro de polémicas relacionadas com atrasos nas entregas e fracas políticas de segurança nos seus armazéns.
«Porquê dar-se ao trabalho de escrever algo com valor de negócio, que será bem recebido por uma pequena minoria de nerds de negócios e tecnologia, só para abrir a porta ao escrutínio e ter 99,9% das respostas negativas?», questiona Anand Sanwal.
Sucharita Kodali, analista na Forrester Research, acrescenta que a abordagem mudou de “Estamos a sair-nos bem enquanto empresa” para “Somos uma empresa que faz bem”.
Por outro lado, Parsa Saljoughian, partner na empresa de venture-investment IVP, considera que a carta é, entre todas, a que tem mais significado. O responsável admite que se trata de uma mensagem diferente das anteriores mas que oferece uma perspectiva sobre a forma como a Amazon impacta o resto do Mundo.
O fim da carta, em particular, surpreendeu Parsa Saljoughian. Jeff Bezos pede aos accionistas para reflectirem sobre uma citação de Theodor Seuss Geisel sobre a existência de três opções quando algo corre mal: podemos deixar que isso nos defina, que nos destrua ou que nos fortaleça. «Estou muito optimista em relação a qual desta opções a civilização irá escolher», escreveu o CEO da Amazon.




