O mercado de trabalho já começou a sentir os efeitos da crise provocada pela pandemia Covid-19. A TAP não vai renovar 100 contratos a prazo, o grupo Pestana não esclarece se tem planos para cortar pessoal e na indústria de eventos milhares de trabalhadores estão em risco, avança o “Expresso”.
À “TSF”, a Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas adianta que «há já organizações que se questionam, em situações extremas, com quem vão ficar e com quem não vão ficar». «Não lhe digo que estão a fazer listas de despedimento. Estão a fazer planos. As empresas começam a colocar a questão já em relação ao pós-coronavírus», acrescentou a mesma fonte.
Contactado pelo “Expresso”, o Vila Galé, um dos maiores grupos hoteleiros nacionais, garantiu que «tudo fará para evitar despedimentos». «Neste momento, relativamente aos colaboradores dos hotéis, temos muitos a prestar assistência a filhos menores de 12 anos. Muitos também optaram por gozar férias, folgas e recuperações. E recorremos ao teletrabalho em todas as funções que o permitem», adiantou fonte oficial da empresa.
Já o Pestana foi mais vago. «Neste momento ainda não é possível fornecer qualquer informação», disse fonte oficial do grupo hoteleiro.
As associações empresariais são mais cautelosas. A Associação Portuguesa de Hotelaria, Restauração e Turismo (AHPORT) diz que, para já, «não há qualquer drama» e a mensagem geral que está a passar no sector é para «aguentar Março sem despedimentos», até mesmo pelas medidas fiscais já anunciadas. Depois «vamos ver como as coisas evoluem», refere Condé Pinto, presidente executivo da APHORT, ressalvando a possibilidade de os restaurantes manterem em funcionamento as encomendas take away, por exemplo.
A Associação da Hotelaria de Portugal, por sua vez, considerou: «As linhas abertas, no valor de mais de mil milhões de euros, são testemunho da preocupação e atenção dada ao turismo».
No segmento específico das empresas dedicadas ao turismo residencial os despedimentos estão, para já, fora de questão. «A questão de despedimentos a curto ou médio prazo não se coloca nas unidades de turismo residencial, dado que nos resorts vivem muitas pessoas como primeira habitação a quem temos de continuar a fornecer todo um conjunto de serviços», referiu Pedro Fontaínhas, Director executivo da Associação Portuguesa de Resorts, que reúne 35 resorts em todo o país.
Por outro lado, o “Expresso” acrescenta que uma das actividades mais afectadas pela pandemia é a dos eventos: há 30 mil trabalhadores em risco. Com base em dados recolhidos junto dos seus associados, a Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos (APECATE), aponta para mais 90% de eventos cancelados. A preservação dos empregos e manutenção das empresas abertas são as duas grandes prioridades da APECATE, mas para isso é preciso esclarecer algumas medidas já anunciadas, como o caso do recurso ao layoff e micro-crédito, por exemplo.
Para o sector automóvel, que emprega mais de 200 mil trabalhadores, os despedimentos não estão excluídos. «É precipitado falar em despedimentos no sector automóvel, mas é um cenário que não podemos excluir, sobretudo em termos de força de vendas», diz Helder Pedro, secretário-geral da Associação de Comércio Automóvel.
Acrescenta que, «na última recessão, em 2009, o sector automóvel registou quebras de vendas da ordem dos 50%, e na altura houve redução das forças de vendas. Agora é pior. Parece um cenário da Segunda Guerra Mundial. As fábricas fecharam e em breve não deverá haver carros para entregar. (…) Muitos dos concessionários de norte a sul do país são PME que não têm muita capacidade para resistir a esta conjuntura durante quatro, cinco ou seis meses. Daí a associação ter pedido ao Governo uma linha de crédito especifica para o sector, mas que ainda não teve resposta.
Alexandre Ferreira, presidente da Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (Anecra) tem um entendimento semelhante. «É cedo para falar em despedimentos mas é previsível que venham a ocorrer porque muitas empresas têm poucas disponibilidades de tesouraria», afirma, salientando que «a alteração do regime de layoff adaptado à realidade sem constrangimentos nem exclusões pode minorar o efeito na empregabilidade do sector automóvel». «Tal como já acontece em Espanha, adoptar soluções indexadas à realidade para o sector de reparação e peças», frisa.
Quanto ao sector da construção, «não está no horizonte das grandes empresas do sector proceder a despedimentos. Deverão aplicar o layoff nos contratos cujo ritmo de trabalhos está a abrandar ou a parar, seja por não se conseguir manter o distanciamento social necessário ou por interrupção da cadeia logística», afirma Ricardo Gomes, presidente da Associação de Empresas de Construção e Obras Publicas e Serviços (AECOPS), acrescentando que «as empresas estão a trabalhar num cenário dois meses de disrupção da actividade».




