O Governo israelita anunciou esta quinta-feira a suspensão de todos os contactos com a alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Kaja Kallas, na sequência de declarações que lhe foram atribuídas por um órgão de comunicação social europeu e nas quais terá comparado Israel à África do Sul durante o período do apartheid.
A decisão foi comunicada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Saar, que acusou a responsável europeia de manter, há já algum tempo, uma postura que considera hostil em relação ao Estado israelita. Num comunicado divulgado esta quinta-feira, Saar afirmou que Kallas tem vindo a atuar de forma “obsessiva” e com “flagrante injustiça” contra Israel, anunciando que a diplomata europeia ficará impedida de manter contactos com as autoridades israelitas até retirar as alegadas declarações.
Segundo o ministro israelita, a chefe da diplomacia europeia será considerada persona non grata junto do Governo de Israel “até que se retrate da calúnia que proferiu contra o único Estado judeu do mundo”. A medida representa uma nova escalada das tensões diplomáticas entre Jerusalém e Bruxelas, num momento em que as relações entre Israel e várias instituições europeias continuam marcadas por divergências relacionadas com os conflitos no Médio Oriente.
A polémica teve origem numa notícia publicada pelo portal belga Euractiv na passada semana. O meio de comunicação relatou que Kaja Kallas terá estabelecido uma comparação entre Israel e a África do Sul do apartheid durante uma reunião realizada à porta fechada, no âmbito de uma visita oficial ao México. De acordo com o Euractiv, a referência surgiu quando a responsável europeia falava sobre uma deslocação efetuada no ano anterior ao Museu do Apartheid, em Joanesburgo, na África do Sul.
O portal não publicou qualquer citação direta atribuída a Kallas, limitando-se a relatar testemunhos de funcionários e diplomatas presentes no encontro. Ainda assim, o Governo israelita considera que a situação é suficientemente grave para justificar a suspensão das relações institucionais com a responsável europeia. No mesmo comunicado, Gideon Saar criticou ainda o facto de Kallas não ter emitido, até ao momento, “qualquer desmentido, esclarecimento ou resposta” relativamente às declarações que lhe foram atribuídas.
A decisão torna Kaja Kallas na mais recente figura da diplomacia europeia a ser afastada pelas autoridades israelitas. O precedente mais recente remonta ao mandato do seu antecessor, Josep Borrell.
Borrell visitou Israel após o ataque levado a cabo pelo Hamas em outubro de 2023 e manteve inicialmente contactos regulares com o Governo israelita. No entanto, a relação deteriorou-se progressivamente à medida que o responsável europeu intensificou as críticas à operação militar israelita na Faixa de Gaza e à expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia.
A deterioração das relações atingiu um ponto particularmente sensível quando o então ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Israel Katz, que atualmente ocupa a pasta da Defesa, chegou a acusar Josep Borrell de antissemitismo. Desde então, o antigo chefe da diplomacia europeia deixou de ser considerado um interlocutor bem-vindo por parte das autoridades israelitas.
Com a decisão agora anunciada contra Kaja Kallas, Israel volta a colocar em causa a relação com a liderança diplomática da União Europeia, aprofundando um clima de crescente tensão entre Jerusalém e Bruxelas num contexto marcado por divergências sobre a situação em Gaza, a Cisjordânia e a evolução da política externa israelita.




