As Forças Armadas de Israel estão a construir uma extensa barreira de terra ao longo da chamada Linha Amarela, numa operação que poderá acabar por dividir a Faixa de Gaza em duas e reduzir ainda mais o território disponível para cerca de dois milhões de palestinianos.
Imagens de satélite analisadas pela ‘Associated Press’ revelam uma sucessão de montes de terra, ainda desconectados, que atravessam várias zonas sob controlo israelita. O Exército confirmou a existência dos trabalhos, mas recusou esclarecer a extensão total da estrutura, limitando-se a invocar razões de segurança.
Em alguns pontos, a barreira parece ultrapassar a própria Linha Amarela, a fronteira provisória para a qual as tropas israelitas recuaram após o cessar-fogo com o Hamas. Esse movimento deveria representar o primeiro passo de uma retirada completa da Faixa, mas as novas obras levantam dúvidas sobre as intenções de Israel.
Dois quilómetros e meio em poucas semanas
Os trabalhos têm avançado a um ritmo acelerado. Um dos troços no sul de Gaza passou de cerca de 500 metros, no início de julho, para quase dois quilómetros e meio em meados do mesmo mês.
A estrutura parte das ruínas de Rafah, atualmente controladas por Israel, e aproxima-se de Muwasi, onde se concentram numerosos campos que acolhem palestinianos deslocados pela guerra.
Este segmento poderá vir a ligar-se a outra barreira com aproximadamente 17 quilómetros, entre Khan Younis e a Cidade de Gaza. Mais a norte, nas proximidades de Beit Lahia, foram identificados novos troços isolados.
A ‘Associated Press’ escreve ainda que as tropas criaram “zonas de segurança” em redor da Linha Amarela, apoiadas por tecnologia de vigilância e meios de informação destinados a proteger os militares e impedir alegadas infiltrações.
Estradas e bases sobre comunidades destruídas
A construção da barreira não é a única transformação em curso.
Israel está também a abrir novas estradas sobre os escombros de comunidades palestinianas arrasadas durante a ofensiva. Nos últimos meses, terão sido construídos mais de 23 quilómetros de vias, além de novas bases militares.
Estas alterações entram em choque com um dos pontos centrais do plano de paz acordado em 2025, que restringia a presença militar israelita ao lado oriental da Linha Amarela e previa a retirada gradual das tropas.
O plano contemplava igualmente a entrada de uma força internacional de segurança, mas essa componente continua por concretizar.
Nenhum dos organismos responsáveis por acompanhar a trégua se pronunciou até agora sobre as novas construções. Cresce, por isso, o receio de que a barreira deixe de ser uma estrutura temporária e se transforme numa nova fronteira dentro da Faixa.
Uma linha que já é mortal
O cessar-fogo alcançado em outubro de 2025 dividiu Gaza em duas áreas, embora sem uma delimitação inteiramente clara no terreno.
Desde então, militares israelitas têm disparado sobre palestinianos que se aproximam ou atravessam a Linha Amarela, alegando que representam uma ameaça. Entre as vítimas encontram-se também crianças.
O ‘El Español’ recorda que Israel continuou a destruir áreas urbanas sob o seu controlo com explosivos e escavadoras, apesar da trégua. Mais de 1.100 palestinianos terão sido mortos desde a entrada em vigor do acordo destinado a pôr fim às hostilidades iniciadas em outubro de 2023.
Acordo continua bloqueado
A aplicação do cessar-fogo permanece num impasse, com Israel e o Hamas a acusarem-se mutuamente de violar o compromisso.
Israel exige que o grupo desarme. O Hamas responde que não entregará as armas enquanto as tropas israelitas permanecerem na Faixa.
O movimento anunciou, entretanto, que aceita transferir a administração de Gaza para um comité de tecnocratas palestinianos, uma das medidas previstas no plano de paz.
Khalil al-Hayya, que liderou a delegação do Hamas nas negociações do cessar-fogo, foi entretanto escolhido para dirigir o grupo. A mudança ocorre numa altura em que a trégua se mantém formalmente em vigor, mas o terreno parece aproximar-se cada vez mais de uma divisão duradoura de Gaza.
















