O Governo israelita aprovou mais de mil milhões de shekels para construir e modernizar estradas destinadas a ligar dezenas de colonatos na Cisjordânia ocupada, numa decisão classificada como “histórica” pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich.
De acordo com o ‘Middle East Monitor’, o investimento ultrapassa os mil milhões de shekels, cerca de 334 milhões de dólares — aproximadamente 287 milhões de euros à taxa de câmbio atual — e será aplicado na construção de novas vias, no alargamento das infraestruturas existentes e no reforço das ligações entre colonatos.
A ‘Reuters’ indica que o montante reservado para infraestruturas rodoviárias ascende concretamente a 1,075 mil milhões de shekels e acompanha outro pacote de 1,3 mil milhões de shekels destinado à criação de 34 novos colonatos.
Estradas para consolidar novos colonatos
Smotrich, dirigente do partido de extrema-direita Sionismo Religioso, afirmou que o plano permitirá estabelecer dezenas de colonatos em “locais estratégicos” da Cisjordânia.
Segundo o ‘Middle East Monitor’, o programa plurianual inclui o planeamento e a construção de novas estradas, a ampliação das redes de transporte existentes e a introdução de medidas adicionais de segurança.
O ministro tem apresentado a expansão dos colonatos como um instrumento para reforçar o controlo israelita sobre o território e impedir a criação de um Estado palestiniano.
Com as novas autorizações, o número de colonatos promovidos durante o atual mandato de Smotrich deverá chegar aos 103, segundo dados citados pela ‘Reuters’.
Mais de 200 quilómetros de novas vias
A organização israelita Peace Now afirma ter identificado mais de 222 quilómetros de novas estradas abertas na Cisjordânia nos últimos dois anos.
Cerca de metade dessas vias terá sido construída em terrenos de propriedade privada palestiniana, segundo a organização, que acusa o Governo israelita de utilizar estradas e caminhos como forma de facilitar a criação de novos postos avançados e ampliar o controlo sobre o território.
A Peace Now sustenta ainda que parte dos projetos é apresentada como necessária por motivos de segurança, mas acaba por permitir aos colonos chegar a novas áreas e consolidar a presença israelita.
Plano tinha sido preparado em maio
A verba de 1,075 mil milhões de shekels para as estradas já constava de uma decisão governamental tomada em maio, de acordo com documentação analisada pela Peace Now.
O financiamento destina-se especificamente a servir novos colonatos cuja criação foi aprovada pelo Governo durante a guerra, acrescenta a organização.
Em junho, o plano de expansão ainda tinha sido remetido para apreciação do gabinete de segurança, depois de críticas sobre a possibilidade de contornar procedimentos habituais de planeamento e fiscalização.
Colonatos são ilegais segundo o direito internacional
A Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, é considerada pelas Nações Unidas território palestiniano ocupado. A generalidade da comunidade internacional considera os colonatos israelitas ilegais ao abrigo do direito internacional, posição contestada por Israel.
Num parecer emitido em julho de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça concluiu que a presença continuada de Israel nos territórios palestinianos ocupados é ilegal e determinou que o país deve cessar imediatamente novas atividades de colonização.
O tribunal afirmou igualmente que os restantes Estados não devem reconhecer como legal a situação criada pela ocupação nem prestar ajuda que contribua para a sua manutenção.
A aprovação do novo pacote surge numa altura em que a União Europeia discute possíveis restrições ao comércio com os colonatos israelitas, embora os Estados-membros continuem divididos sobre a adoção de tarifas, licenças especiais ou uma proibição total das importações.
Para Smotrich, o investimento representa uma alteração duradoura da realidade no terreno. Para as organizações contrárias à ocupação, as novas estradas não são apenas infraestruturas de transporte: constituem os eixos em torno dos quais Israel poderá consolidar e ampliar dezenas de colonatos na Cisjordânia.














