Israel e Líbano avançam esta quinta-feira para uma segunda ronda de negociações diretas em Washington, num momento particularmente sensível marcado por um cessar-fogo recente e ainda considerado frágil. O encontro, mediado pelos Estados Unidos, surge como um teste decisivo à possibilidade de reduzir tensões numa região profundamente instável.
De acordo com o Departamento de Estado norte-americano, citado por várias fontes oficiais, esta nova ronda de conversações ao nível de embaixadores terá lugar nas instalações da diplomacia norte-americana e representa um prolongamento do diálogo iniciado a 14 de abril — o primeiro contacto direto entre os dois países em décadas.
Um porta-voz da diplomacia dos EUA sublinhou a importância do processo, garantindo que Washington continuará a desempenhar um papel ativo como mediador. “Continuaremos a facilitar discussões diretas e de boa-fé entre os dois governos”, afirmou, reforçando o compromisso norte-americano com a estabilidade regional.
Negociações retomadas após cessar-fogo frágil
A reunião desta quinta-feira será a primeira desde a entrada em vigor de um cessar-fogo de 10 dias entre Israel e o movimento xiita Hezbollah, no Líbano, anunciado na semana passada. Apesar da trégua, a situação no terreno mantém-se volátil.
O acordo de cessar-fogo foi anunciado a 16 de abril pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que manifestou otimismo quanto à evolução do conflito. Na altura, declarou que “ambos os lados querem ver a paz” e mostrou-se confiante de que essa solução poderá ser alcançada rapidamente.
Ainda assim, o clima permanece tenso. Nos dias que antecedem esta nova ronda negocial, continuam a registar-se ações militares no sul do Líbano, com Israel a prosseguir operações que incluem a destruição de infraestruturas em zonas fronteiriças, alegadamente com o objetivo de criar uma linha de “defesa avançada”.
Líbano insiste que negociações não são sinal de fraqueza
Do lado libanês, o Presidente Joseph Aoun tem procurado legitimar o envolvimento nas negociações, sublinhando que o diálogo não representa qualquer cedência estratégica. Num discurso televisivo recente, afirmou que “estas negociações não são uma fraqueza. Não são um recuo. Não são uma concessão”.
Na mesma intervenção, Aoun acrescentou que o processo resulta de uma decisão soberana: “São uma decisão que nasce da força da nossa convicção nos nossos direitos e da responsabilidade de proteger o nosso país por todos os meios possíveis”.
Beirute tem ainda procurado afirmar a sua autonomia diplomática, defendendo que apenas o governo libanês tem legitimidade para negociar em nome do país, numa altura em que o Irão tem insistido na inclusão do Líbano num quadro mais alargado de negociações regionais.
Hezbollah critica duramente o processo
As negociações não reúnem consenso interno no Líbano. O Hezbollah, aliado do Irão e uma das forças dominantes no país, tem manifestado oposição frontal ao diálogo com Israel.
O líder do movimento, Naim Qassem, criticou duramente a iniciativa, classificando-a como uma série de “concessões perdedoras”. Segundo afirmou, “rejeitamos as negociações com a entidade israelita ocupante. Estas negociações são inúteis”.
Qassem foi mais longe, ao defender que qualquer mudança de rumo diplomático deveria resultar de consenso interno, algo que, segundo diz, não aconteceu: “Ninguém tem o direito de levar o Líbano nessa direção sem consenso interno entre as suas componentes”.
Primeira ronda abriu caminho a contactos inéditos
A primeira ronda de negociações, realizada a 14 de abril, foi considerada histórica por marcar o primeiro encontro direto entre representantes dos dois países em várias décadas. O encontro contou com a presença do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e reuniu os embaixadores de Israel e do Líbano em Washington.
Do lado israelita participou o embaixador Yechiel Leiter, enquanto o Líbano esteve representado pela embaixadora Nada Moawad (também referida como Nada Hamadeh em algumas fontes). Para esta nova ronda, Beirute designou o diplomata Simon Karam como chefe da delegação.
O relançamento das negociações surge após uma escalada militar particularmente violenta. Poucos dias antes da primeira ronda, Israel lançou uma vaga de ataques aéreos sobre território libanês, incluindo a capital, Beirute, provocando mais de 300 mortos, entre civis, profissionais de saúde e crianças.
Apesar do cessar-fogo, persistem episódios de violência. Israel anunciou recentemente ter abatido alegados combatentes em Bint Jbeil, enquanto o Hezbollah afirmou ter atacado um comboio militar israelita com um engenho explosivo na região de Deir Siriane.




