A coligação governamental de Benjamin Netanyahu apresentou uma proposta para dissolver o Knesset, o Parlamento israelita, e abrir caminho à convocação de eleições antecipadas ainda este ano. A iniciativa foi entregue por Ofir Katz, líder da coligação parlamentar e deputado do Likud, um dia depois de partidos da oposição terem apresentado propostas semelhantes, num momento de forte tensão em torno da lei de recrutamento militar dos judeus ultraortodoxos, noticia o ‘ABC’.
A manobra permite ao bloco governamental tentar controlar o calendário eleitoral, caso a queda do Parlamento se torne inevitável. A votação preliminar poderá ocorrer já na próxima semana. As eleições legislativas estavam previstas para outubro, mas a crise dentro da coligação tornou mais provável uma ida às urnas antes do fim da legislatura. A ‘Associated Press’ confirma que a proposta apresentada pela coligação é um primeiro passo formal para eleições ainda em 2026.
No centro da crise está a exigência dos partidos ultraortodoxos para manter ou alargar as isenções ao serviço militar obrigatório para estudantes das yeshivas, as escolas religiosas judaicas. A questão tornou-se ainda mais explosiva depois de anos de guerra e mobilização militar, com setores da sociedade israelita a contestarem que uma parte da população continue dispensada do serviço enquanto o Exército opera em múltiplas frentes. O ‘Times of Israel’ relata que a “rebelião haredi” lançou em desordem os planos legislativos do Governo.
A rutura foi agravada pelas declarações do rabino Dov Lando, líder espiritual da fação Degel HaTorah, que afirmou já não confiar em Netanyahu e defendeu a dissolução do Parlamento “o mais rápido possível”. “Para nós, o conceito de bloco já não existe”, afirmou. Também a fação Agudat Yisrael, integrada no Judaísmo Unido da Torá, apoiou a iniciativa depois de Netanyahu ter admitido aos deputados ultraortodoxos que não tinha votos suficientes para aprovar a legislação exigida.
A oposição tenta aproveitar a fragilidade do primeiro-ministro. O Yesh Atid, de Yair Lapid, e os Democratas, de Yair Golan, apresentaram projetos próprios para antecipar eleições, procurando transformar a crise do recrutamento numa oportunidade para derrubar um Governo já desgastado pela guerra, pelas divisões internas e pelas críticas à liderança de Netanyahu.
A pressão vem também das Forças Armadas. O chefe do Estado-Maior israelita, Eyal Zamir, alertou recentemente que, sem o recrutamento de judeus ultraortodoxos, a autoridade militar poderá entrar em colapso por falta de recursos humanos, num contexto em que Israel enfrenta simultaneamente ameaças em Gaza, no Líbano, no Irão e noutras frentes regionais. A discussão sobre a isenção dos haredi deixou assim de ser apenas religiosa ou política: passou a tocar diretamente a capacidade operacional do Estado.
Para Netanyahu, a proposta de dissolução do Knesset é simultaneamente uma tentativa de ganhar tempo e de evitar que a oposição dite o ritmo da crise. Mas o gesto confirma a fragilidade da coligação mais à direita da história recente de Israel. Se a dissolução avançar, o país poderá entrar novamente em campanha eleitoral num dos momentos mais sensíveis da sua segurança nacional.




