Islândia divide-se antes de referendo que pode relançar processo de adesão à União Europeia

Islândia apresentou inicialmente a candidatura à União Europeia em 2009, na sequência da crise financeira, mas suspendeu as negociações em 2013, alegando que não poderia avançar sem consultar os eleitores

Francisco Laranjeira

A Islândia prepara-se para decidir se quer voltar à mesa das negociações com Bruxelas para uma eventual adesão à União Europeia, num referendo marcado para 29 de agosto. O ‘The Guardian’ escreve que a votação surge numa altura simbólica, quando o Reino Unido assinala dez anos sobre o referendo do Brexit, mas coloca a ilha nórdica perante uma escolha em sentido inverso: sair da distância prudente ou aproximar-se da UE.

A Islândia apresentou inicialmente a candidatura à União Europeia em 2009, na sequência da crise financeira, mas suspendeu as negociações em 2013, alegando que não poderia avançar sem consultar os eleitores. Mais de uma década depois, o tema regressa à agenda política.

A primeira-ministra Kristrún Frostadóttir, a mais jovem de sempre a chefiar o Governo islandês, tinha admitido no ano passado que esperava um referendo em 2027, considerando-o um “passo necessário”. Mas o calendário mudou depois das ameaças de Donald Trump sobre a Gronelândia, território vizinho da Islândia, e do novo foco geopolítico sobre o Ártico.

A antecipação do referendo mostra como a discussão sobre a UE já não é apenas económica ou institucional. A segurança, a soberania e a vulnerabilidade estratégica do Atlântico Norte entraram no debate, num país que sempre preservou com cuidado a sua independência.

Ainda assim, a sociedade islandesa está dividida. Para os defensores da adesão, o Brexit funciona como exemplo negativo: uma campanha marcada por desinformação, promessas disputadas e dificuldades posteriores para o Reino Unido. Para os eurocéticos, a saída britânica mostra precisamente o contrário: uma vez dentro da União Europeia, recuperar autonomia pode ser longo, complexo e politicamente doloroso.

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A ministra dos Negócios Estrangeiros da Islândia, Þorgerður Katrín Gunnarsdóttir, defensora de uma aproximação à UE, afirmou recear que o país enfrente um “momento Brexit”, referindo-se às alegações controversas usadas pela campanha britânica a favor da saída. Para a governante, o Brexit deve servir como exemplo de “como não conduzir uma campanha”.

Do lado contrário, os eurocéticos argumentam que a experiência britânica prova os riscos de entrar numa estrutura da qual pode ser difícil sair. Haraldur Ólafsson, do grupo anti-UE Heimssýn, citado pelo Reykjavík Grapevine, afirmou que a União Europeia quis tornar a saída britânica “tão dolorosa quanto possível” e advertiu que aquilo que se perde num dia pode demorar “muitas centenas de anos” a recuperar.

As sondagens mostram que os defensores da adesão ainda têm terreno a ganhar. A Islândia, tal como a Noruega, já faz parte do Espaço Económico Europeu e do espaço Schengen, o que lhe garante acesso ao mercado interno e livre circulação sem ser membro da UE. Uma sondagem da Gallup indicava 54% contra a adesão e 46% a favor. Outro estudo apontava 53% de apoio à retoma das negociações e 47% contra.

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A votação de agosto, contudo, não será uma decisão final sobre a entrada na União Europeia. Se os islandeses disserem “sim” à retoma das negociações, haverá um segundo referendo sobre os termos concretos de adesão que venham a ser negociados com Bruxelas.

A pesca é o tema mais sensível. O setor tem um peso central na economia e na identidade islandesa. O valor total dos ativos pesqueiros em 2023 foi estimado em 1.059 mil milhões de coroas islandesas, cerca de 7,3 mil milhões de euros. Qualquer concessão sobre quotas, gestão de recursos marítimos ou soberania sobre as águas nacionais poderá tornar-se decisiva.

Freyja Steingrímsdóttir, diretora executiva da Associação de Jornalistas Islandeses, reconhece que “a maior questão é sempre a pesca”, embora note que a UE já terá deixado sinais de que poderia haver uma exceção para a Islândia nessa matéria. O outro grande ponto é o euro.

A economia islandesa tem um histórico de inflação elevada, juros altos e volatilidade. Por isso, Steingrímsdóttir observa que talvez haja mais islandeses interessados em aderir à zona euro do que propriamente à União Europeia. Para parte do eleitorado, a moeda única surge como promessa de estabilidade. Para outros, representa perda de margem de manobra económica.

O debate não segue uma divisão simples entre esquerda e direita. Hulda Þórisdóttir, professora de Ciência Política na Universidade da Islândia, afirma que há apoio à UE em ambos os lados do espetro político e que as vozes mais audíveis tendem a ser as mais extremadas. A maioria dos cidadãos, diz, estará a tentar pesar prós e contras, muitas vezes com falta de informação clara.

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A qualidade da informação será um dos desafios da campanha. Num país pequeno, sujeito a pressões internas e externas, e num momento em que ferramentas de inteligência artificial podem alterar campanhas eleitorais, há receios de que os eleitores tenham dificuldade em distinguir argumentos sólidos de manipulação ou ruído.

Além da pesca e da moeda, os argumentos contra a adesão incluem a agricultura, a preservação do elevado nível de vida, a identidade de um país visto como líder mundial em igualdade e a relação estratégica com os Estados Unidos.

Mas o argumento mais emocional continua a ser a soberania. A Islândia só conquistou a independência plena da Dinamarca em 1944, e essa memória permanece viva. “Esta ideia de uma independência duramente conquistada continua muito presente na alma nacional islandesa”, afirma Hulda Þórisdóttir.

O mesmo argumento, porém, é usado pelos defensores da UE em sentido contrário. Para estes, estar fora da União Europeia pode deixar a Islândia demasiado exposta num mundo mais instável. A pertença a uma aliança forte de países europeus com valores semelhantes é apresentada como forma de reforçar, e não reduzir, a soberania.

No fundo, a escolha islandesa coloca duas ideias de independência frente a frente. Para uns, entrar na União Europeia significa entregar competências a Bruxelas e arriscar setores estratégicos como a pesca. Para outros, ficar fora significa continuar isolado no Atlântico Norte, num tempo em que o Ártico voltou ao centro das tensões geopolíticas.

A Islândia está, por isso, a aproximar-se do seu próprio momento de verdade europeu. Ao contrário do Reino Unido, não vai decidir se quer sair, mas se quer voltar a negociar a entrada. E, como mostrou o Brexit, a campanha pode acabar por ser tão decisiva como a pergunta no boletim de voto.

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