Isabel dos Santos sofre derrota em tribunal. Empresária perde recurso no Reino Unido e bens vão continuar congelados

O Supremo Tribunal de Londres rejeitou o recurso apresentado pela empresária angolana Isabel dos Santos para anular a ordem de congelamento dos seus bens no Reino Unido, mantendo assim a decisão de congelar os seus ativos até um valor de 695 milhões de euros. A decisão foi noticiada esta segunda-feira pela Reuters e marca mais um revés no processo que a empresária enfrenta, movido pela operadora de telecomunicações angolana Unitel, da qual foi acionista maioritária.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Supremo Tribunal de Londres rejeitou o recurso apresentado pela empresária angolana Isabel dos Santos para anular a ordem de congelamento dos seus bens no Reino Unido, mantendo assim a decisão de congelar os seus ativos até um valor de 695 milhões de euros. A decisão foi noticiada esta segunda-feira pela Reuters e marca mais um revés no processo que a empresária enfrenta, movido pela operadora de telecomunicações angolana Unitel, da qual foi acionista maioritária.

O caso em questão está relacionado com alegados empréstimos fraudulentos concedidos pela Unitel à empresa holandesa Unitel International Holdings (UIH) em 2012 e 2013, que foram usados para financiar a aquisição de participações em outras empresas de telecomunicações. Na época, Isabel dos Santos era diretora da Unitel e proprietária da UIH, que, apesar do nome, não tem ligação direta com a operadora angolana. A empresária perdeu o controlo da Unitel em 2020, mas ainda detém a totalidade da UIH.

Em dezembro do ano passado, o juiz Robert Bright do Supremo Tribunal Comercial de Londres emitiu uma ordem de congelamento mundial dos bens de Isabel dos Santos, afirmando: “Não vejo nenhuma base óbvia para que os bens de Isabel dos Santos sejam protegidos nesta jurisdição; parece haver um argumento óbvio a favor de um congelamento mundial dos seus bens,” segundo a agência Lusa. O Supremo Tribunal de Londres confirmou agora essa decisão, ao rejeitar o pedido de recurso da empresária.

Os advogados que representam a Unitel argumentam que Isabel dos Santos prejudicou a empresa ao emprestar 323 milhões de euros e 43 milhões de dólares (aproximadamente 38,5 milhões de euros, ao câmbio atual) à UIH a taxas de juro que consideram “injustificadamente baixas” e sem garantias significativas, conforme detalhado pelo site Maka Angola. Para a operadora angolana, a decisão de Isabel dos Santos de emprestar esse dinheiro visava unicamente o seu benefício pessoal e representou uma violação dos deveres de diligência, cuidado e lealdade em relação à Unitel.

Além disso, a Unitel alega que a UIH não paga qualquer juro relativo ao empréstimo desde o final de 2019, início de 2020. A empresária, por sua vez, defende que é vítima de uma “perseguição política” conduzida a partir do palácio presidencial em Luanda, pelo Presidente de Angola, João Lourenço. Isabel dos Santos alega que esta campanha de opressão é responsável pela incapacidade da UIH de reembolsar os empréstimos, uma vez que os seus ativos foram alegadamente apreendidos de forma ilegal.

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Atualmente, Isabel dos Santos reside no Dubai, onde tem conseguido evitar o pedido de detenção provisória emitido pela Procuradoria-Geral de Angola no final de 2022. Na altura, as autoridades angolanas solicitaram uma “Red Notice” à Interpol, um pedido que serve para localizar e prender provisoriamente uma pessoa até à extradição, entrega ou ação legal semelhante. No entanto, os Emirados Árabes Unidos não têm um acordo de extradição com Angola, o que tem dificultado a execução do mandado.

Segundo o Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA), os Emirados Árabes Unidos não estão a cumprir as suas “obrigações legais internacionais,” possivelmente devido ao facto de se terem tornado um “ponto global de refúgio e acolhimento de várias pessoas politicamente expostas, recebendo avultados rendimentos por esse papel de proteção.”

A empresária, que outrora detinha vários interesses em Portugal, finalizou, em julho deste ano, a venda total da sua participação no banco EuroBic (42,5%) ao banco galego Abanca, concluindo assim os seus investimentos em território português. Esta transação era o último resquício da sua influência no país, onde também tinha interesses na Galp, Efacec e NOS.

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Por outro lado, a recuperação de ativos por parte das autoridades angolanas tem sido difícil. Em agosto, quatro organizações da sociedade civil angolana – Mãos Livres, Omunga, Pro Bono Angola e Uyele – enviaram cartas aos procuradores-gerais de Angola, Hélder Pitta Gróz, e de Portugal, Lucília Gago, expressando a sua “preocupação” pelo facto de ambos os países não terem chegado a um acordo para a devolução dos bens confiscados a Isabel dos Santos em Portugal.

O jurista Rui Verde, numa declaração à VOA em agosto, referiu que Angola tem encontrado muitas dificuldades para recuperar os ativos no estrangeiro. “Por um lado, a Procuradoria-Geral da República angolana não tinha experiência em lidar com estes assuntos – é óbvio –, por outro lado, os Estados também não querem ver sair milhões e milhões dos seus PIB, dos seus bancos, dos seus mercados financeiros.”

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