Reza Pahlavi, o filho exilado do último Xá iraniano, criticou hoje a relutância da União Europeia em assumir uma posição mais clara contra Teerão no conflito com os Estados Unidos e Israel, instando-a a fazê-lo.
“Há momentos na história em que a neutralidade não é uma posição, mas uma decisão — em que a cautela não é prudência, é cumplicidade”, sublinhou o opositor ao regime da República Islâmica, numa entrevista concedida ao portal de notícias Euractiv em Berlim, antes de se reunir com membros da comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros do Bundestag (câmara baixa do parlamento alemão).
Embora os líderes europeus, entre os quais o chanceler alemão, Friedrich Merz, tenham sublinhado que a União Europeia (UE) não é parte no conflito, Pahlavi defendeu que a neutralidade acarreta consequências e que Bruxelas tem enviado sinais contraditórios desde o início, a 28 de fevereiro, da ofensiva conjunta israelo-norte-americana contra a pretensão iraniana de produzir armas nucleares.
Recentemente convidado a ir ao Parlamento Europeu, onde acabou por não discursar, Pahlavi, figura proeminente da oposição ao regime teocrático instaurado no seu país em 1979, acusou os Governos europeus de se deixarem “chantagear por Teerão” através da tomada de reféns e de ameaças de violência em solo europeu.
“Os Governos europeus tornaram-se reféns dos seus reféns”, declarou, referindo-se à detenção de cidadãos europeus pelas autoridades iranianas.
O herdeiro do Xá deposto pela Revolução Islâmica exortou a UE a ir além do que descreveu como uma política de apaziguamento, instando à expulsão dos embaixadores iranianos e à recusa em legitimar qualquer acordo político que preserve a estrutura de poder vigente, centrada na Guarda Revolucionária Islâmica.
Sustentou igualmente que os Estados-membros devem preparar-se para reconhecer uma futura autoridade de transição no Irão.
Como condições para qualquer negociação, Pahlavi afirmou que Teerão deve suspender as execuções, libertar os presos políticos e levantar as restrições no acesso à Internet.
“Um regime que não consegue cumprir estas três condições, que não lhe custam nada, não pode ser considerado fiável para entregar um grama de urânio”, observou.
Embora tenha saudado medidas como a possível reimposição das sanções já levantadas da ONU (“snapback”) e os debates sobre a classificação da Guarda Revolucionária Islâmica como organização terrorista, defendeu que elas são insuficientes.
Exortou ainda a Europa comunitária a ajudar a contornar as restrições à Internet impostas por Teerão apoiando infraestruturas de comunicação alternativas.
O filho de Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980) emitiu estas declarações quando os líderes da UE vão reunir-se hoje e sexta-feira em Chipre para discutir a crise no golfo Pérsico, em especial as consequências dos bombardeamentos e as tensões em torno das restrições à circulação no estreito de Ormuz.
Segundo Pahlavi, a situação dos cidadãos iranianos deve ser central nessas discussões, incluindo a proteção dos dissidentes iranianos que vivem na Europa.
Sobre o cessar-fogo temporário de duas semanas, na quarta-feira prorrogado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, para que as negociações de paz prossigam, Reza Pahlavi rejeitou a ideia de que as condições de vida tenham melhorado dentro do Irão.
“Apesar de suspensos os ataques aéreos, o regime continua a enforcar prisioneiros políticos, a condenar adolescentes à morte e a manter milhões de pessoas sem acesso à Internet”, descreveu, resumindo: “A guerra contra o povo iraniano nunca parou”.
De acordo com o opositor iraniano, 19 presos políticos foram executados nas últimas duas semanas e outros 20 enfrentam penas de morte relacionadas com os protestos de janeiro.
“Um regime enfraquecido é como um animal ferido”, propenso a atacar, comentou.
Alertou ainda os decisores políticos ocidentais contra a procura de uma solução política superficial, defendendo que qualquer acordo que deixe intacto o sistema dominado pela Guarda Revolucionária Islâmica não trará estabilidade, não travará as ambições nucleares do Irão nem porá fim ao seu apoio a grupos armados regionais aliados.
“O povo iraniano não sacrificou 40 mil vidas para ver o regime reformulado com uma nova cara”, disse, referindo-se aos massacres de manifestantes que o regime levou a cabo em janeiro.
“Eles (os iranianos) querem uma rutura total”, vincou.
Qualquer acordo que preserve o atual regime carecerá de legitimidade junto dos iranianos e correrá o risco de desencadear mais conflitos, argumentou.
“Se pensam que é possível fazer as pazes com este regime, estão redondamente enganados. Se permitirem que sobreviva, mais conflitos serão inevitáveis — e mais iranianos morrerão”, insistiu.





