Irão mantém segredo sobre possível sucessor do ayatollah Khamenei: favorito é especialista em repressão

A possibilidade do desaparecimento do Grande Ayatollah Khamenei, em vez de uma morte natural, já está a ser considerada pelo regime fundamentalista criado por Khomeini em 1979

Francisco Laranjeira
Junho 20, 2025
12:49

Ali Khamenei, o clérigo xiita que governa o Irão desde 1989, “já não pode existir” após o bombardeamento de um hospital em Israel, disse ontem o ministro da Defesa israelita, Benny Gantz. Três dias antes, o primeiro-ministro Netanyahu declarou na televisão que “não descarta” o assassinato do líder supremo do Irão, de 86 anos.

Embora o plano tenha enfrentado a oposição de Trump quando foi revelado na Casa Branca, o presidente americano ‘moldou’ a sua oposição e afirmou que “por enquanto” não deve ser eliminado. O projeto de matar Khamenei — onde quer que esteja escondido — encontra oposição aberta apenas do presidente francês Macron, que avisou Washington: “Que se lembrem do que aconteceu depois da morte de Khadafi na Líbia e de Saddam Hussein no Iraque.”

Curiosamente, a possibilidade do desaparecimento do Grande Ayatollah Khamenei, em vez de uma morte natural, já está a ser considerada pelo regime fundamentalista criado por Khomeini em 1979.

A 15 de novembro último, o regime anunciou que o órgão responsável pela seleção do sucessor do Líder Supremo, a Assembleia de Peritos, já tinha escolhido três candidatos para suceder a Khamenei. Os três nomes são oficialmente mantidos em segredo, mas, desde então, todos os meios de comunicação não oficiais concordaram em apontar o segundo filho do Líder, o clérigo xiita Mokhtaba Khamenei, de 55 anos, como o favorito.

Segundo o ‘The Economic Times’, o pai prepara-o para o cargo há 27 anos, com duas figuras que o auxiliam no controlo da complexa estrutura organizacional do regime clerical: Abbas Palizdar, um dos líderes do aparelho judicial, e Mohamed Sarafraz, antigo presidente da televisão estatal (recentemente atacado por Israel).

Mokhtaba Khamenei enfrenta a oposição velada de grande parte do clero xiita, que acredita que o filho do Líder Supremo não possui qualificações teológicas suficientes para Qom — uma espécie de Vaticano dentro da comunidade xiita —, mas este parece mais do que capaz de suprimir a oposição, que promete ser impressionante quando o poder autoritário concentrado em Ali Khamenei desaparecer.

Mokhtaba já foi colocado à frente da milícia Basij, que foi fundamental na repressão dos protestos de rua em 2009, quando se tornou claro que o regime tinha viciado as eleições para impedir que o candidato reformista fosse eleito chefe de Governo.

Segundo o ‘Iran International’, o segundo candidato a Líder Supremo é Alireza Arafi, amigo e confidente de Khamenei, segundo vice-presidente da Assembleia de Peritos e membro de outro órgão de elite khomeinista: o Conselho dos Guardiões. Arafi, ao contrário de Mokhtaba Khamenei, goza de prestígio entre o alto clero de Qom. Também deste círculo faz parte o terceiro candidato a Líder Supremo, Hashem Busheri, outro clérigo xiita conhecido pelos seus sermões naquela cidade.

Os três candidatos à sucessão de Khamenei garantem a pureza da essência fundamentalista do regime que impôs a sua disciplina a 90 milhões de iranianos durante 45 anos. A chegada de Mokhtaba seria um mau sinal para aqueles que aspiram a alguma forma de reforma e abertura, mas poderia acelerar o fim do sistema a médio prazo, ao resistir ao autoritarismo dinástico.

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