Irão hostiliza no espaço de dias o maior aliado e o maior inimigo: ataque a base americana e a petroleiro russo podem ter consequências imprevisíveis

Irão, em particular os rebeldes Houthis, atacaram, este fim de semana, de forma intencional ou não, simultaneamente o seu maior inimigo e o seu maior aliado

Francisco Laranjeira
Janeiro 29, 2024
15:56

O Irão, em particular os rebeldes Houthis, atacaram, este fim de semana, de forma intencional ou não, simultaneamente o seu maior inimigo e o seu maior aliado, o que é uma estratégia que, à primeira vez, não parece muito convencional.

O ataque este fim de semana a uma base americana, que provocou a morte de três soldados dos EUA, pode ter consequências imprevisíveis numa região que já é um verdadeiro barril de pólvora. No entanto, o ataque com mísseis, na passada sexta-feira, a um petroleiro com combustível russo, através do Golfo de Aden, pode ser decisivo para um mercado petrolífero que se tem mantido relativamente imune aos ataques houthis ao comércio internacional.

Até agora tem reinado a calma no mercador petrolífero: embora a tensão no Mar Vermelho e noutros pontos-chave continue a aumentar, o petróleo bruto que flui através do Mar Vermelho e do Canal de Suez provém em grande parte da Rússia, um dos grandes aliados do Irão. Recorde-se que os Houthis tinham garantido que os navios russos nada tinham a temer e que Moscovo é um aliado devido ao seu bom relacionamento com o Irão.

Por isso mesmo, o ataque da passada sexta-feira foi uma surpresa total, o que provoca o risco de uma crise energética e de um grande conflito, que, apesar de ainda pequeno, está a aumentar, afirmou a Gavekal Research, em declarações ao jornal espanhol ‘El Economista’. “E está a aumentar num contexto de risco crescente no mercado de energia em outras partes da região e além. O ataque com mísseis Houthi de sexta-feira ao navio operado pela Trafigura que transportava uma carga altamente inflamável de nafta russa através do Golfo de Aden marca uma escalada de perigos regionais”, salientaram os especialistas.

No entanto, quanto mais reprimida for a capacidade dos Houthis de atacar alvos, maior será o risco de ataques indiscriminados a navios neutros, o que está a fazer com que as transportadoras marítimas estejam a desviar as suas rotas.

De acordo com a agência ‘Bloomberg’, importa a questão: o petróleo bruto russo é agora alvo dos rebeldes? “Provavelmente, não”, referiram os especialistas, pelo menos não de propósito. A questão é que é muito difícil saber qual carga cada navio transporta – de acordo com a base de dados marítima internacional ‘Equasis’ é possível distinguir quem é o proprietário do ‘Marlin Luanda’ – o petroleiro que foi atacado -, uma empresa chamada ‘Oceonix Services’, com sede em Londres. Para os Houthis, isso pode ter sido uma ligação suficiente.

A questão é que o combustível transportado pelo ‘Marlin Luanda’ era um derivado do petróleo bruto russo, transportado através de prestadores de serviços ocidentais, uma vez que o seu preço estava dentro do limite permitido pelas sanções americanas.

Ou seja, se os Houthis traçarem o perfil dos seus alvos através de bases de dados disponíveis publicamente, poderão errar o alvo e atacar “inadvertidamente” muitos navios de combustível russos, pelo menos em parte porque há tão pouca informação disponível publicamente.

É complexo, mas não é impossível uma comunicação entre Moscovo e Teerão para reportar os navios carregados com derivados russos: o Irão, depois, informava os Houthis. No entanto, o risco de implementar esta estratégia é elevado e colocaria a Rússia e o Irão numa situação ainda mais complexa em relação ao mundo, caso fossem descobertos. Embora todos saibam que o Irão apoia os Houthis, em ataques como o de domingo contra as tropas americanas, Teerão continua a negar ativa e passivamente o seu envolvimento.

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