Irão concede indulto a jornalistas que revelaram caso de jovem morta pela polícia não usar corretamente o ‘hijab’

As jornalistas iranianas Nilüfer Hamedi e Elaheh Mohammadi, condenadas por divulgarem a morte sob custódia policial da jovem Mahsa Amini, foram indultadas por ordem do líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei.

Pedro Zagacho Gonçalves

As jornalistas iranianas Nilüfer Hamedi e Elaheh Mohammadi, condenadas por divulgarem a morte sob custódia policial da jovem Mahsa Amini, foram indultadas por ordem do líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei. O perdão foi anunciado pelo advogado das repórteres, Hojat Kermani, e faz parte de uma campanha de 3.126 indultos concedidos por ocasião do 46.º aniversário da Revolução Islâmica de 1979, segundo o jornal judicial Mizan.

Ambas as jornalistas tinham sido sentenciadas a cinco anos de prisão por “crimes contra a segurança nacional” e a mais um ano por “propaganda contra o sistema”, após um julgamento marcado por restrições ao direito de defesa.

O papel crucial das jornalistas na divulgação do caso
Nilüfer Hamedi foi a primeira jornalista a relatar a detenção de Mahsa Amini, que foi presa pela polícia da moralidade iraniana por não usar corretamente o véu islâmico. Tanto Hamedi como Elaheh Mohammadi cobriram não só a morte da jovem, mas também as agressões que sofreu sob custódia policial e o seu funeral, evento que desencadeou uma onda de protestos sem precedentes no país.

As imagens de Amini hospitalizada e visivelmente ferida tornaram-se virais e deram origem ao lema “Mulher, Vida, Liberdade”, que inicialmente simbolizava a luta pelos direitos das mulheres, mas rapidamente evoluiu para uma contestação geral contra o regime e a grave crise económica que o país atravessa há anos.

Pouco depois da morte de Amini, Hamedi e Mohammadi foram presas e mantidas em isolamento durante quase um ano e meio, uma situação denunciada pelas suas famílias. O julgamento decorreu sem a presença dos advogados de defesa nem familiares das acusadas, e o tribunal condenou-as a um total de 12 anos de prisão por várias acusações.

Continue a ler após a publicidade

Inicialmente, enfrentavam também a acusação de conspiração com governos estrangeiros, incluindo os Estados Unidos, mas esse crime foi retirado posteriormente. Contudo, as sentenças por “crimes contra a segurança nacional” e “propaganda contra o sistema” foram mantidas.

No início de 2024, ambas foram libertadas sob fiança, e, embora tenham sido informadas de que deveriam regressar à prisão, essa ordem acabou por não ser confirmada. Durante o tempo em que estiveram detidas, Hamedi e Mohammadi receberam o Prémio da Liberdade de Imprensa das Nações Unidas, uma distinção que também foi atribuída à ativista e Prémio Nobel da Paz, Narges Mohammadi.

Indultos como ferramenta política
O indulto concedido pelo aiatola Khamenei faz parte de um conjunto de perdões que o regime iraniano concede anualmente, seja por motivos religiosos ou para assinalar o aniversário da Revolução Islâmica. No entanto, ainda não está claro se outras pessoas detidas durante os protestos de Mahsa Amini foram também incluídas na lista de indultos.

Continue a ler após a publicidade

Segundo meios de comunicação locais, pelo menos 100 jornalistas foram presos por cobrirem as manifestações, e a resposta do regime foi marcada por uma repressão violenta. De acordo com organizações de direitos humanos, a ação das forças de segurança resultou em mais de 500 mortos e 20 mil detenções desde o início dos protestos.

O impacto das manifestações levou o regime iraniano a reforçar ainda mais as restrições contra as mulheres, impondo medidas rígidas para garantir que o uso do véu seja cumprido rigorosamente, inclusive em espaços comerciais e dentro de automóveis.

Além disso, segundo um relatório da Human Rights Watch (HRW), a repressão não se limitou aos manifestantes. Muitos familiares de vítimas da violência estatal também foram perseguidos e detidos, numa tentativa de silenciar as denúncias contra o regime.

“As autoridades iranianas estão a reprimir a população em dobro: executam ou matam um membro da família e depois prendem os seus entes queridos por exigirem justiça”, denunciou Nahid Naghshbandi, investigadora da HRW no Irão.

Apesar do impacto internacional das denúncias sobre o caso de Mahsa Amini e a repressão no Irão, as autoridades mantêm uma política de repressão sistemática, e não há sinais de que o regime esteja disposto a flexibilizar o seu controlo sobre a sociedade iraniana.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.