Irão ameaça alargar guerra para fora do Médio Oriente se EUA voltarem a atacar

Irão já tinha ameaçado retaliar contra países do Médio Oriente que acolhem bases militares americanas, mas os Guardas Revolucionários sugeriram esta quarta-feira que a resposta poderá ir mais longe

Francisco Laranjeira

O Irão ameaçou alargar a guerra para fora do Médio Oriente caso os Estados Unidos voltem a atacar o país, depois de Donald Trump ter afirmado que esteve a uma hora de retomar a campanha militar suspensa há cerca de seis semanas. A ameaça, noticiada pela ‘Reuters’, surge numa altura em que as negociações para encerrar o conflito continuam praticamente bloqueadas.

Teerão apresentou esta semana uma nova proposta aos Estados Unidos, mas os termos divulgados publicamente repetem exigências já rejeitadas por Trump. Entre elas estão o controlo iraniano do Estreito de Ormuz, compensações pelos danos causados pela guerra, levantamento de sanções, libertação de ativos congelados e retirada das tropas americanas da região.

Trump disse na segunda-feira e voltou a repetir na terça-feira que esteve perto de ordenar uma nova campanha de bombardeamentos, mas decidiu adiar a decisão no último momento para dar mais tempo à diplomacia. “Estive a uma hora de tomar a decisão de avançar hoje”, afirmou o presidente americano aos jornalistas, na Casa Branca.

O aviso iraniano subiu agora de tom. O Irão já tinha ameaçado retaliar contra países do Médio Oriente que acolhem bases militares americanas, mas os Guardas Revolucionários sugeriram esta quarta-feira que a resposta poderá ir mais longe. “Se a agressão contra o Irão se repetir, a guerra regional prometida estender-se-á desta vez para além da região”, indicaram, em comunicado divulgado pelos meios estatais.

A tensão militar mantém-se ligada à pressão sobre o Estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais sensíveis para o comércio mundial de energia. Desde o início da campanha americano-israelita, em fevereiro, o Irão tem mantido o estreito praticamente fechado a navios que não sejam seus, provocando aquela que é descrita como a maior perturbação de sempre no fornecimento global de energia. Em resposta, os Estados Unidos avançaram no mês passado com um bloqueio aos portos iranianos.

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Apesar disso, Teerão tem dado sinais de abertura seletiva a países considerados aliados. Dois grandes petroleiros chineses, com cerca de quatro milhões de barris de crude, aproximadamente 636 milhões de litros, atravessaram esta quarta-feira o Estreito de Ormuz. A passagem ocorre depois de o Irão ter anunciado, na semana passada, durante uma visita de Trump a Pequim, um acordo para aliviar as regras aplicadas a navios chineses. A Coreia do Sul indicou também que um navio-tanque sul-coreano atravessava o estreito em coordenação com o Irão.

Segundo a Lloyd’s List, citada pela ‘Reuters’, pelo menos 54 navios passaram pelo estreito na semana passada, cerca do dobro da semana anterior. O número continua, ainda assim, muito abaixo do ritmo anterior à guerra, quando cerca de 140 navios atravessavam diariamente aquela rota.

A pressão sobre Trump aumenta também no plano interno. A subida dos preços da energia está a criar dificuldades ao Partido Republicano antes das eleições para o Congresso, marcadas para novembro. Desde o cessar-fogo, as declarações públicas do Presidente americano têm oscilado entre ameaças de novos bombardeamentos e garantias de que um acordo de paz pode estar próximo.

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Na terça-feira, Trump disse que a guerra terminaria “muito rapidamente”. O vice-presidente JD Vance, que liderou a delegação americana na única ronda de negociações realizada até agora, também procurou transmitir otimismo. “Estamos numa posição bastante boa”, afirmou numa conferência de imprensa na Casa Branca.

O cessar-fogo com o Irão tem resistido, embora de forma instável. Houve uma intensificação dos ataques contra navios e países do Golfo no início de maio, depois de Trump ter anunciado uma missão naval para reabrir o Estreito de Ormuz. Essa operação, chamada Project Freedom, acabou por ser cancelada ao fim de 48 horas.

Esta semana, uma nova vaga de drones foi lançada contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que atribuíram a origem dos ataques ao Iraque, onde operam milícias aliadas do Irão.

Quando lançaram a guerra, Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, apresentaram como objetivos travar o apoio iraniano a milícias regionais, desmantelar o programa nuclear de Teerão, destruir as capacidades de mísseis do país e enfraquecer o regime iraniano. Até agora, porém, o conflito não retirou ao Irão o seu stock de urânio enriquecido a níveis próximos dos necessários para uso militar, nem a capacidade de ameaçar países vizinhos através de mísseis, drones e milícias aliadas.

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