O Irão ameaçou alargar a guerra para fora do Médio Oriente caso os Estados Unidos voltem a atacar o país, depois de Donald Trump ter afirmado que esteve a uma hora de retomar a campanha militar suspensa há cerca de seis semanas. A ameaça, noticiada pela ‘Reuters’, surge numa altura em que as negociações para encerrar o conflito continuam praticamente bloqueadas.
Teerão apresentou esta semana uma nova proposta aos Estados Unidos, mas os termos divulgados publicamente repetem exigências já rejeitadas por Trump. Entre elas estão o controlo iraniano do Estreito de Ormuz, compensações pelos danos causados pela guerra, levantamento de sanções, libertação de ativos congelados e retirada das tropas americanas da região.
Trump disse na segunda-feira e voltou a repetir na terça-feira que esteve perto de ordenar uma nova campanha de bombardeamentos, mas decidiu adiar a decisão no último momento para dar mais tempo à diplomacia. “Estive a uma hora de tomar a decisão de avançar hoje”, afirmou o presidente americano aos jornalistas, na Casa Branca.
O aviso iraniano subiu agora de tom. O Irão já tinha ameaçado retaliar contra países do Médio Oriente que acolhem bases militares americanas, mas os Guardas Revolucionários sugeriram esta quarta-feira que a resposta poderá ir mais longe. “Se a agressão contra o Irão se repetir, a guerra regional prometida estender-se-á desta vez para além da região”, indicaram, em comunicado divulgado pelos meios estatais.
A tensão militar mantém-se ligada à pressão sobre o Estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais sensíveis para o comércio mundial de energia. Desde o início da campanha americano-israelita, em fevereiro, o Irão tem mantido o estreito praticamente fechado a navios que não sejam seus, provocando aquela que é descrita como a maior perturbação de sempre no fornecimento global de energia. Em resposta, os Estados Unidos avançaram no mês passado com um bloqueio aos portos iranianos.
Apesar disso, Teerão tem dado sinais de abertura seletiva a países considerados aliados. Dois grandes petroleiros chineses, com cerca de quatro milhões de barris de crude, aproximadamente 636 milhões de litros, atravessaram esta quarta-feira o Estreito de Ormuz. A passagem ocorre depois de o Irão ter anunciado, na semana passada, durante uma visita de Trump a Pequim, um acordo para aliviar as regras aplicadas a navios chineses. A Coreia do Sul indicou também que um navio-tanque sul-coreano atravessava o estreito em coordenação com o Irão.
Segundo a Lloyd’s List, citada pela ‘Reuters’, pelo menos 54 navios passaram pelo estreito na semana passada, cerca do dobro da semana anterior. O número continua, ainda assim, muito abaixo do ritmo anterior à guerra, quando cerca de 140 navios atravessavam diariamente aquela rota.
A pressão sobre Trump aumenta também no plano interno. A subida dos preços da energia está a criar dificuldades ao Partido Republicano antes das eleições para o Congresso, marcadas para novembro. Desde o cessar-fogo, as declarações públicas do Presidente americano têm oscilado entre ameaças de novos bombardeamentos e garantias de que um acordo de paz pode estar próximo.
Na terça-feira, Trump disse que a guerra terminaria “muito rapidamente”. O vice-presidente JD Vance, que liderou a delegação americana na única ronda de negociações realizada até agora, também procurou transmitir otimismo. “Estamos numa posição bastante boa”, afirmou numa conferência de imprensa na Casa Branca.
O cessar-fogo com o Irão tem resistido, embora de forma instável. Houve uma intensificação dos ataques contra navios e países do Golfo no início de maio, depois de Trump ter anunciado uma missão naval para reabrir o Estreito de Ormuz. Essa operação, chamada Project Freedom, acabou por ser cancelada ao fim de 48 horas.
Esta semana, uma nova vaga de drones foi lançada contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que atribuíram a origem dos ataques ao Iraque, onde operam milícias aliadas do Irão.
Quando lançaram a guerra, Trump e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, apresentaram como objetivos travar o apoio iraniano a milícias regionais, desmantelar o programa nuclear de Teerão, destruir as capacidades de mísseis do país e enfraquecer o regime iraniano. Até agora, porém, o conflito não retirou ao Irão o seu stock de urânio enriquecido a níveis próximos dos necessários para uso militar, nem a capacidade de ameaçar países vizinhos através de mísseis, drones e milícias aliadas.












