O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmail Baghaei, acusou esta segunda-feira a Europa de abandonar o papel de mediador no dossiê nuclear e de transferir o controlo das negociações para os Estados Unidos e Israel. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, em Teerão, o responsável afirmou que, com o regresso iminente das sanções das Nações Unidas, a Europa está a “seguir as ordens de Donald Trump”.
“As sanções da ONU vão ser reimpostas a pedido da Europa em menos de 30 dias, e isso devolverá aos EUA o poder de veto no Conselho de Segurança sobre o que acontece a seguir, incluindo a continuação das sanções”, disse Baghaei.
Segundo o porta-voz, a Europa “decidiu ser o procurador dos EUA e de Israel”. Para Baghaei, esta posição contrasta com a atuação dos antigos líderes da diplomacia europeia — como Javier Solana, Cathy Ashton, Federica Mogherini e Josep Borrell — que procuraram manter-se como mediadores credíveis entre Teerão e Washington.
“Os europeus estão a fazer aquilo que Trump lhes ditou”, acusou Baghaei, considerando “absolutamente irresponsável” que os governos europeus tenham entregue essa função aos norte-americanos.
O porta-voz destacou ainda as declarações do chanceler alemão Friedrich Merz, que em junho afirmou que Israel estava a fazer “o trabalho sujo por todos nós” ao atacar instalações nucleares iranianas. “De certa forma, todos os países europeus toleraram o que Israel fez e muito provavelmente forneceram informações ao regime israelita”, acrescentou.
Baghaei advertiu que, caso o parlamento iraniano aprove uma lei para retirar o país do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o governo não terá base constitucional para impedir essa decisão. “A retirada do tratado é uma prerrogativa do parlamento”, sublinhou.
A votação sobre a medida está prevista para terça-feira, e os deputados indicaram que a proposta deverá ser aprovada com esmagadora maioria. Se Teerão abandonar o TNP, a ONU perderá o direito de supervisionar o programa nuclear iraniano, aumentando os receios ocidentais de que o país possa avançar para a construção de uma arma nuclear.
Baghaei insistiu que o Irão está preparado para responder a novos ataques ocidentais: “Estamos prontos porque isto é uma questão de dignidade e soberania. Creio que, no Reino Unido, tiveram o vosso espírito de blitz quando foram atacados pela Alemanha nazi. Temos o mesmo espírito, porque sabíamos que esta guerra, imposta a meio das negociações, era profundamente injusta.”
Na semana passada, França, Alemanha e Reino Unido notificaram a ONU de que iriam reimpor sanções globais ao Irão no final de setembro, caso Teerão não cumprisse três condições: permitir o regresso imediato dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) aos locais bombardeados, entregar informações sobre o paradeiro das 400 kg de urânio altamente enriquecido em seu poder e aceitar abrir negociações com os EUA sobre o futuro do programa nuclear.
Embora as capitais europeias defendam que ainda existe margem para diplomacia nas próximas quatro semanas, Baghaei rejeitou as exigências, considerando-as “um sinal de que não estão a agir de boa-fé”.
“O défice de confiança entre a AIEA e o Irão é extremo. Há uma preocupação real de que as informações recolhidas nos locais acabem nas mãos de Israel, sobretudo depois da abordagem altamente politizada da AIEA”, declarou. O porta-voz lembrou ainda que relatórios anteriores da agência foram usados por Washington e Telavive para justificar a resolução que acusou Teerão de incumprimento, a qual, segundo afirmou, serviu de pretexto para o ataque israelita de junho.
Pressão interna limita margem diplomática
Baghaei reconheceu que o espaço para manobras diplomáticas é limitado devido ao clima interno. “A verdade é que a nossa opinião pública está indignada com os ataques ilegais contra as nossas instalações e, como governo, temos de ser responsáveis perante o povo e o parlamento”, afirmou.
O porta-voz acusou ainda o Ocidente de desviar a atenção: “A comunicação social ocidental fala da nossa cooperação com a AIEA e dos nossos stockpiles, mas o público no Ocidente deve recordar os atos escandalosos cometidos por Israel e pelos EUA. Eles sabotaram o processo diplomático e atacaram o direito internacional, quando as nossas instalações estiveram sob inspeção contínua durante três décadas.”
Apesar do tom crítico, Teerão insiste que o objetivo continua a ser alcançar um compromisso que permita o regresso dos inspetores da AIEA. Diplomatas iranianos asseguraram à agência que o urânio enriquecido não foi transferido e que o país continua disposto a dialogar com os EUA, embora afirme não ter recebido resposta às mensagens enviadas a Washington.
Baghaei disse ainda que o Irão está disposto a reduzir o nível de pureza do urânio para 3,67%, como estabelecido no acordo nuclear original, desde que seja garantido o direito de enriquecer urânio em território nacional. “Pergunto porque razão os EUA querem retirar-nos esse direito, se, como Trump afirmou, a nossa capacidade já teria sido destruída pelos ataques conjuntos dos EUA e de Israel”, concluiu.






