Investir na mobilidade urbana é investir no futuro

Opinião de Carlos Humberto de Carvalho, presidente da TML – Transportes Metropolitanos de Lisboa

Executive Digest

Por Carlos Humberto de Carvalho, presidente da TML – Transportes Metropolitanos de Lisboa

 

É difícil falar de mobilidade urbana, hoje, sem tocar em duas ideias centrais: eficiência e sustentabilidade. A forma como nos deslocamos deixou de ser apenas uma questão prática. Passou a ter um peso direto na forma como vivemos, na qualidade das cidades e até no tipo de futuro que estamos a construir.

Se analisarmos o modelo de mobilidade dominante, centrado no transporte individual, percebemos rapidamente os seus limites. Mais carros significam mais emissões, mais trânsito, mais tempo perdido no dia a dia. Além disso, resultam também em cidades mais saturadas e menos respiráveis. É um modelo que funcionou durante décadas, mas que já não responde às necessidades atuais.

É aqui que o investimento na mobilidade urbana e, em particular, no transporte público, ganha relevância. Não apenas como alternativa, mas como parte da solução. O veículo ligeiro emite quase sete vezes mais CO2 para fazer a mesma tarefa: levar uma pessoa do ponto A ao ponto B. A diferença não é pequena e mostra bem o potencial de um sistema pensado para transportar mais pessoas com menos impacto.

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Quando passamos da teoria à escala real, os efeitos tornam-se ainda mais evidentes. Com cerca de 750 mil passageiros por dia, o impacto acumulado é expressivo. Estamos a falar de cerca de 8.870 toneladas de CO₂ evitadas diariamente.

Dito assim, pode parecer um número distante. Mas ele traduz-se em coisas muito concretas: menos carros nas estradas, menos pressão sobre as infraestruturas, menos poluição no ar que respiramos. No fundo, cidades que funcionam melhor. É também um sinal claro de que escolhas individuais, quando existe uma rede capaz de as suportar, acabam por gerar ganhos coletivos muito relevantes.

Há ainda uma dimensão menos visível, mas igualmente importante. O chamado custo social do carbono tenta justamente dar valor económico ao impacto das emissões. Ou seja, cada tonelada de CO₂ emitida tem um custo real para a sociedade. Reduzi-la não é apenas uma questão ambiental, é também evitar encargos futuros que, de uma forma ou de outra, acabam por ser suportados por todos.

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Mas a mobilidade urbana não se esgota no ambiente ou na economia. Há um lado social que não pode ser ignorado. Uma rede com maior cobertura, horários mais ajustados, melhor frequência e tarifas acessíveis faz mais do que transportar pessoas.

Também no plano económico os efeitos são visíveis. Mais mobilidade traz mais pessoas para o espaço público, mais atividade, mais comércio local. As zonas bem servidas por transporte público tendem a tornar-se mais atrativas, o que se reflete no investimento e na valorização do território. A mobilidade não é apenas um meio de deslocação, é um fator de desenvolvimento.

Convém, no entanto, não perder de vista que nada disto acontece de forma automática. Resulta de investimento consistente, de planeamento e de uma visão clara sobre o papel do transporte público. Melhorar frequências, ajustar horários, garantir acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida e manter tarifas acessíveis são escolhas que exigem continuidade e compromisso.

Portugal assumiu metas climáticas ambiciosas para 2030 e 2050. Cumpri-las implica agir em várias frentes, mas poucas têm um impacto tão imediato como a mobilidade urbana. Expandir a rede e reforçar a oferta não é apenas melhorar um serviço, é dar um passo concreto na direção de uma região, um país, um mundo mais sustentável.

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