O investimento em start-ups europeias de inteligência artificial (IA) continua a ganhar força, mesmo num contexto de turbulência nos mercados tecnológicos e de crescente instabilidade no comércio internacional. No entanto, analistas alertam que a guerra comercial global, impulsionada pelas novas tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump, poderá colocar este progresso em risco.
Segundo dados revelados em primeira mão ao Euronews Next e analisados pela Balderton Capital a partir da plataforma Dealroom, o financiamento por capital de risco para empresas de IA na Europa aumentou 55% no primeiro trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior. No total, as empresas de IA europeias arrecadaram 3,4 mil milhões de dólares (cerca de 3 mil milhões de euros), superando largamente os 2,2 mil milhões de dólares (1,9 mil milhões de euros) registados em 2024.
Ao mesmo tempo, as ações tecnológicas europeias, excluindo o setor de IA, registaram uma queda de 10% no mesmo período.
Impacto da guerra comercial
Apesar destes números positivos, a análise ainda não reflete os impactos das novas tarifas comerciais decretadas por Donald Trump. O presidente norte-americano impôs recentemente tarifas de 125% sobre as importações oriundas da China e estabeleceu uma taxa de 20% sobre as exportações europeias para os Estados Unidos, que posteriormente foi reduzida temporariamente para 10%.
Durante o fim de semana, Trump anunciou que dispositivos eletrónicos como smartphones e computadores seriam isentos destas tarifas, um alívio momentâneo que ajudou a estabilizar ligeiramente as ações tecnológicas europeias na manhã de segunda-feira. Contudo, o futuro permanece incerto, já que Trump adiantou que pretende anunciar ainda esta semana novas taxas sobre semicondutores importados — componentes essenciais para o desenvolvimento de tecnologias de IA.
Corrida geopolítica pela liderança em IA
O lançamento de modelos fundacionais de IA tornou-se uma questão de segurança nacional para muitas potências globais. Um recente relatório da Universidade de Stanford aponta que os Estados Unidos e a China continuam a liderar com grande vantagem sobre a Europa na construção destes modelos.
Apesar disso, a Balderton Capital destacou que o aumento do investimento na Europa tem sido dirigido sobretudo a empresas que atuam nos setores da saúde, media de IA, cibersegurança e robótica.
O interesse em agentes de IA também tem crescido: aproximadamente 52 milhões de dólares (45 milhões de euros) foram investidos em novas start-ups focadas no desenvolvimento destas ferramentas, incluindo as suecas Lovable e a londrina Paid AI.
Plano de Ação para tornar a Europa um “continente da IA”
Na semana passada, Henna Virkkunen, comissária europeia para a tecnologia, apresentou o Plano de Ação para o Continente da IA, que pretende reforçar a infraestrutura tecnológica europeia, melhorar o acesso a dados, desenvolver competências digitais e simplificar regulamentações, com o objetivo de transformar as indústrias tradicionais da região.
“É importante construir capacidades em setores críticos para que o bloco não fique dependente de outras regiões”, afirmou Virkkunen, citada pela Euronews. “Identificámos a IA como um dos setores nos quais precisamos de desenvolver capacidade própria, tal como na computação quântica e nos semicondutores. Estas são tecnologias-chave para o futuro”.
Este ano, surgiram também dois novos “unicórnios” europeus no setor da IA — empresas que alcançaram uma valorização de mil milhões de dólares (1 mil milhão de euros) sem estarem cotadas em bolsa: a sueca Neko Health e a irlandesa Tines. Com estas adições, a Europa conta agora com 76 unicórnios no setor da IA.
O desempenho dos principais mercados europeus
Apesar de já não integrar a União Europeia, o Reino Unido captou a maior fatia do investimento em IA na Europa até agora em 2025, arrecadando cerca de 4,2 mil milhões de dólares (3,6 mil milhões de euros), dos quais 1,6 mil milhões (1,4 mil milhões de euros) foram destinados exclusivamente a empresas de IA.
A Alemanha também registou uma subida expressiva: o investimento em IA no país aumentou 74% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior, totalizando 404 milhões de dólares (355 milhões de euros).
Em contrapartida, França, apesar do forte impulso governamental para o desenvolvimento da IA — com destaque para empresas como a Mistral AI —, viu o investimento encolher cerca de 18% no primeiro trimestre em relação a 2024. A Balderton sublinha, no entanto, que a queda no setor da IA foi menos acentuada do que a queda geral no investimento em tecnologia francesa, que recuou 26%.
O governo francês tem intensificado os esforços para posicionar o país como líder europeu em IA, tendo acolhido este ano a Cimeira de Ação para a IA em Paris. Às vésperas do evento, o presidente Emmanuel Macron anunciou investimentos de 109 mil milhões de euros no setor para os próximos anos.
“É o equivalente, para França, ao que os Estados Unidos anunciaram com o projeto Stargate”, declarou Macron, referindo-se à iniciativa norte-americana que prevê investir 500 mil milhões de dólares (438 mil milhões de euros) na construção de novas infraestruturas de IA nos próximos quatro anos.
James Wise, sócio da Balderton Capital, reforçou o otimismo em relação ao futuro da IA na Europa: “A ambição europeia em IA está cada vez mais forte. A Cimeira de Ação para a IA em Paris estabeleceu uma fasquia elevada para o que precisa de ser feito na Europa, e é ótimo ver start-ups e scale-ups europeias a responderem ao desafio”, afirmou.
“Desde a saúde até à cibersegurança e automação, as empresas europeias de IA estão a construir soluções extremamente necessárias, e o ritmo de financiamento demonstra que os investidores acreditam no potencial tecnológico do continente”, concluiu Wise.













