Investigadores alertam: ChatGPT está a distorcer o ensino da História em Portugal

Um consórcio internacional de investigadores concluiu que o ChatGPT apresenta conteúdos históricos com erros factuais, distorções cronológicas, omissões relevantes e até eventos inventados, levantando preocupações sérias sobre o impacto destas ferramentas no ensino da História.

Executive Digest

Um consórcio internacional de investigadores concluiu que o ChatGPT apresenta conteúdos históricos com erros factuais, distorções cronológicas, omissões relevantes e até eventos inventados, levantando preocupações sérias sobre o impacto destas ferramentas no ensino da História. Entre os problemas identificados estão batalhas inexistentes, documentários nunca produzidos, datas trocadas ou apagadas e narrativas contraditórias que variam consoante a língua utilizada nas perguntas.

Segundo o jornal Público, o estudo analisou mais de 3500 exemplos de conversação, em sete línguas, relativos à Guerra do Vietname, às guerras na Jugoslávia, às guerras coloniais envolvendo Portugal e ao conflito Israel-Palestina, tendo identificado “problemas sistemáticos, como conteúdo fabricado e distorções cronológicas”. A chamada Operação Nó Górdio, em Moçambique, foi colocada em 1964 em vez de 1970, e a independência da Guiné-Bissau, proclamada em 1973, foi omitida. Face às conclusões, dois dos investigadores apelam a medidas urgentes por parte do Governo e da Assembleia da República.

Os autores do artigo são Nuno Moniz, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, e Miguel Cardina, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. O consórcio integra ainda Atalia Omer e Peter Cajka (Universidade de Notre Dame), Jasna Ćurković Nimac e Tomislav Anić (Universidade Católica da Croácia) e Silvana Mandolessi (KU Leuven, Bélgica). Os investigadores descrevem o trabalho como “a primeira análise sistemática de como os sistemas de IA apresentam informação histórica”, sublinhando que as descobertas revelam enviesamentos associados à língua dominante nos dados de treino e vulnerabilidades à manipulação dos conteúdos apresentados.

De acordo com a equipa, o funcionamento do ChatGPT gera uma “História escrita por dados”, em que a maior quantidade de informação disponível numa determinada língua condiciona as narrativas produzidas noutras. Mesmo perguntas colocadas em vietnamita sobre a Guerra do Vietname evidenciaram a predominância de perspectivas comuns nos Estados Unidos. Os investigadores alertam que “cada ano que passa sem intervenção resulta num novo conjunto de estudantes cuja compreensão histórica pode incluir cada vez mais conteúdos fictícios gerados por estes sistemas”, num contexto em que a utilização de IA pelos alunos é crescente. Citam, a título ilustrativo, um estudo da Associação Académica de Coimbra segundo o qual 80% dos estudantes utilizam ferramentas de IA no quotidiano.

Para Moniz e Cardina, as implicações podem ser “mais rápidas e profundas do que o estimado”, com impacto directo na capacidade das futuras gerações compreenderem o passado e “participarem por inteiro numa sociedade democrática”. Recordam que os sistemas de IA “funcionam dinamicamente, estabelecendo padrões de autoridade falsos que se tornam cada vez mais difíceis de abordar uma vez enraizados em contextos educacionais e culturais”, sendo que a eficácia das intervenções diminui à medida que esses padrões se normalizam e podem até ser integrados em materiais educativos legítimos.

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Perante este cenário, os investigadores apresentam três recomendações: a criação de um grupo de trabalho para desenvolver orientações sobre o uso de IA no ensino básico e secundário; a elaboração de recomendações claras pelas instituições de ensino superior sobre as potencialidades e riscos destas ferramentas; e a alocação de financiamento público para investigação que permita ao sistema educativo enfrentar criticamente os desafios colocados pela IA. Alertam ainda para o facto de línguas com menor disponibilidade de dados, como o português, estarem mais vulneráveis à manipulação através da inserção direccionada de dados, reforçando a necessidade de uma resposta política e institucional urgente.

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