*** Ana Mendes Henriques (texto) e Pedro Lapinha (vídeo), da agência Lusa ***
Lisboa, 24 mai 2026 (Lusa) — O investigador José Carlos Ferreira considerou hoje que é urgente “repor a legalidade” nas praias da Caparica, face às construções ilegais que estão a intensificar-se e à manutenção de apoios de praia no cordão dunar.
“Na Fonte da Telha não temos construções legais, com exceção de uma ou outra, a maior parte é tudo construção ilegal e está a intensificar-se”, afirmou em entrevista à agência Lusa o investigador do MARE — Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.
Repor a legalidade, explicou, pressupõe “retirar a Cova do Vapor” e renaturalizar a Fonte da Telha, demolindo as casas ilegais e relocalizando a comunidade piscatória num local mais seguro, mantendo a pesca. Os bares e restaurantes na praia terão também de recuar, ao abrigo dos instrumentos de ordenamento do território, assegurou.
“Isto é o que está previsto nos planos, se forem bem executados”, acrescentou, referindo-se ao programa da orla costeira e aos planos de intervenção de praia.
Para José Carlos Ferreira, professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa, é preciso “coragem política” e financiamento para resolver questões que acarretam custos financeiros e sociais: “Temos de ter essa consciência também, tem de haver aqui algum equilíbrio”.
Depois das limitações ao acesso automóvel à Fonte da Telha, anunciadas este mês pela Câmara Municipal de Almada, o próximo passo, segundo o investigador, é “repor a legalidade”.
“Os apoios de praia têm de recuar para as áreas que estão indicadas no plano de intervenção. E depois temos de reequacionar onde ficam os parques de estacionamento. Construção que existe na Fonte da Telha, que é feita todos os dias, também tem de ser repensada. Está a consolidar-se de dia para dia”, testemunhou.
De acordo com o investigador, Portugal tem bons planos, mas precisa de dotar a Agência Portuguesa do Ambiente, o Instituto de Conservação da Natureza e as câmaras municiais que atuam no litoral, de meios humanos especializados e recursos financeiros para que possam executar o que está previsto, em alguns casos há 10 ou 15 anos.
“Não pode continuar como está a acontecer hoje. Quando tentamos repor a legalidade, temos logo uma providência cautelar, temos o Tribunal Administrativo a interromper e isto fica parado. A nossa justiça não é célere e isto aqui é um grande problema. Temos de ser céleres na aplicação e na reposição da legalidade, senão o crime compensa”, defendeu.
“Temos pessoas que vivem há anos aqui nas casinhas que estão sobre as dunas na Praia da Saúde. Das 44 casas de madeira, a maior parte já não tem nada a ver com as casas que os pescadores transportaram. Já foram todas refeitas, algumas delas com gosto duvidoso, e estão no Airbnb a 300 euros por dia. Isto em cima da duna!”, exclamou.
De acordo com José Carlos Ferreira, o Estado já tentou por diversas vezes demolir aquelas casas.
“É muito importante a reposição da legalidade com urgência, porque se não estamos a dar a ideia de que o crime compensa e isso não é aceitável. E é a mesma coisa nos apoios de praia”, exemplificou.
Segundo o investigador, a maior parte dos concessionários tem consciência da fragilidade do local onde opera, mas outros atuam como se a praia fosse propriedade privada.
“Alguns dos apoios de praia, todos os anos vão com uma escavadora para cima da duna, arrasar a duna, para construírem os avançados das esplanadas e continuam a operar há anos. Por que não lhes tiram a licença?”, questionou.
As tempestades do inverso deixaram marcas na Fonte da Telha, como noutras praias, mas ao contrário da Caparica aqui não deverá ser necessário repor areia artificialmente, disse.
“Neste momento, passado um mês ou dois, já começa o perfil a voltar, mas não volta igual. Os apoios de praia não vão ter o mesmo areal que tinham no ano passado”, estimou José Carlos Ferreira.
O trabalho na Fonte da Telha passa por recuar os bares, restaurar as dunas e criar passadiços que permitam a deslocação do estacionamento para a praia e para os restaurantes sem pisar as dunas. “Se fizermos isto, nem plantação de dunas é preciso fazer. Elas voltam a robustecer”, assegurou.
Da mesma forma que o perfil da praia não estará igual, as alterações provocadas pela deslocação de areia deverão também ter impacto na pesca.
“No ano em que se faz o enchimento de praia, há normalmente uma redução de pesca de algumas espécies”, assumiu José Carlos Ferreira.
O impacto nas comunidades locais de todas as alterações que se verificam atualmente, da subida no nível do mar, ao clima, juntamente com a intervenção humana, reflete-se nas espécies pescadas na costa.
“Há uma tendência para termos menos sardinha, para termos menos peixes que os pescadores gostam mais, que lhes dão mais lucro. Por exemplo, menos dourada, menos robalo. Há outras espécies que chegam com mais intensidade, que é o caso da corvina e que traz bastantes lucros aos pescadores”, referiu.



