A mais recente tensão diplomática entre a Europa e os EUA ganhou novo fôlego esta semana, com a Bélgica a convocar com caráter de urgência o embaixador americano em Bruxelas. A informação é avançada pelo ‘El Confidencial’, que relata que o diplomata Bill White acusou o país de “antissemitismo” devido a uma investigação policial relacionada com circuncisões rituais judaicas.
A polémica teve origem numa investigação em Antuérpia a três mohelim — responsáveis pela realização do Brit Milá, a circuncisão ritual de bebés judeus, normalmente ao oitavo dia de vida. Os suspeitos poderão vir a ser julgados este verão por alegadamente praticarem uma versão do ritual que envolve a sucção oral do prepúcio, associada a uma pequena comunidade ultraortodoxa haredi. O rabino-chefe nega que tal prática esteja a ser realizada, mantendo-se a investigação em curso.
Bill White, descrito como apoiante de Donald Trump e que se apresenta como “católico devoto” com ascendência judaica, publicou mensagens nas redes sociais em que classificou o processo como uma “perseguição antissemita ridícula”. Numa intervenção pouco habitual nos assuntos internos de um Estado soberano, dirigiu-se diretamente ao ministro da Saúde belga, Frank Vandenbroucke, defendendo a criação de um enquadramento legal que permita aos mohelim exercerem funções no país.
A reação belga não tardou. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Maxime Prévot, convocou o diplomata e considerou “falsa, ofensiva e inaceitável” qualquer insinuação de que a Bélgica seja antissemita. Prévot sublinhou ainda que ataques pessoais a membros do Governo e interferências em processos judiciais violam normas diplomáticas básicas, frisando que o respeito pela soberania é “uma via de dois sentidos”.
A legislação belga permite a circuncisão ritual — também praticada por muçulmanos — desde que realizada por um profissional de saúde. Quando efetuado em ambiente hospitalar, o procedimento custa pouco mais de 100 euros, sendo totalmente reembolsado pelo seguro de saúde, com um encargo anual estimado em cerca de 2,6 milhões de euros. Apesar do debate político sobre o financiamento público de procedimentos de natureza religiosa, essa não é a questão central da atual crise diplomática.
Nos últimos anos, a Bélgica tem adotado medidas que restringem determinadas práticas religiosas consideradas insalubres ou cruéis. Uma das mais controversas foi a proibição do abate de animais sem atordoamento prévio, o que na prática inviabilizou os rituais halal e kosher em várias regiões do país. Este contexto alimenta receios de que a investigação em Antuérpia possa abrir caminho a uma limitação de facto do Brit Milá.
No julgamento, o tribunal terá de decidir se a circuncisão não médica se enquadra na liberdade religiosa ou se exige regulamentação específica. Michael Freilich, deputado judeu de direita em Antuérpia, alertou que não existem médicos judeus suficientes no país para assegurar a prática exclusivamente em contexto clínico. A comunidade judaica na Bélgica ronda as 29 mil pessoas, concentradas sobretudo em Bruxelas e Antuérpia.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel também se pronunciou, com o ministro Gideon Saar a reforçar as críticas ao processo e a referir um aumento de incidentes antissemitas no país desde o início da ofensiva israelita em Gaza, fenómeno igualmente identificado por uma instituição pública belga independente.
Segundo o ‘El Confidencial’, esta crise insere-se num padrão mais amplo de posicionamento da atual administração americana face à Europa, invocando a defesa da liberdade religiosa e de expressão. O vice-presidente JD Vance criticou recentemente aquilo que classificou como “leis opressivas” europeias, enquanto o secretário de Estado Marco Rubio afirmou, na Conferência de Segurança de Munique, que os EUA intervêm por se preocuparem profundamente com o futuro europeu.
A convocação do embaixador americano expõe, assim, uma fratura diplomática que ultrapassa o caso concreto de Antuérpia e reabre o debate sobre soberania, liberdade religiosa e os limites da intervenção externa nos assuntos internos dos Estados europeus.




