Considerada a boneca russa de Putin, Margarita Simonian, diretora do canal de notícias russo ‘Russia Today’, declarou na semana passada: “Ou perdemos na Ucrânia ou começa a III Guerra Mundial. E acho que a possibilidade de uma III Guerra Mundial é mais realista”. Para a jornalista, o cenário mais provável, talvez inevitável, é que tudo terminará em ataque nuclear é o cenário mais provável, talvez inevitável.
Uma ameaça já não tão distante é o ‘controlo’ das armas nucleares por parte da Inteligência Artificial (IA), que tem potencial para realizar milhares de cálculos por segundo, medindo as consequências de cada cenário. O uso dessa tecnologia aumenta o risco de uma guerra nuclear? Um relatório da corporação Rand afirmou que os avanços na IA estão a desenvolver recursos que antes não eram viáveis, “o que poderia exacerbar o confronto que existia na Guerra Fria”.
A destruição mutuamente assegurada foi uma ‘estratégia’ para assegurar estabilidade estratégica ao reduzir os incentivos para que os dois blocos – Rússia e Estados Unidos – tomassem medidas que pudessem levar a uma guerra nuclear naquele momento. No entanto, a situação mudou em 2019, quando Donald Trump, presidente dos EUA, decidiu rasgar o tratado de armas nucleares que Washington e Moscovo assinaram em 1987.
O uso de programas de inteligência artificial em sistemas de comando e controlo nuclear de primeiro mundo melhora o fluxo de informações, a precisão na recolha e análise de inteligência e a segurança cibernética, reduzindo erros e interpretações erradas, segundo relatou o jornal espanhol ‘ABC’. No entanto, há uma desvantagem: o desenvolvimento de mísseis hipersónicos e armas que utilizam IA por empresas chinesas, americanas e russas encurtou o tempo necessário para lançar um contra-ataque, ou seja, ‘destrói’ a condição de destruição mutuamente assegurada.
“Estamos numa encruzilhada. Nas próximas décadas, teremos tecnologias que podem causar devastação global, e há motivos para acreditar que não teremos conhecimentos para as gerir com segurança”, explicou Jaime Sevilla, investigador da Universidade de Cambridge. Jaime Sevilla e Lucа Ortiz de Zárate Alcarazo, colaboradores da ‘Fundación Alternativas’, usam o caso do tenente-coronel Stanislav Petrov, que evitou um holocausto nuclear em 1983 quando o sistema soviético de deteção de mísseis deu um falso positivo, alertando que cinco mísseis se dirigiam para o território russo. Segundo Sevilla, a URSS estava prestes a iniciar uma guerra nuclear com os SUA.
Os especialistas em dissuasão nuclear dos EUA, Adam Lowther e Curtis McGiffin, propuseram dar à IA um papel maior no arsenal nuclear. “Pode ser necessário desenvolver um sistema baseado em inteligência artificial, capaz de reagir a tal velocidade que os tempos de ataque não coloquem os EUA numa posição insustentável”, explicaram. A mesma ideia tiveram os russos.
O ‘Sistema de Perímetro’, também conhecido como ‘a Mão dos Mortos’, foi um modelo semiautomático desenvolvido pela União Soviética. Embora tenha sido desativado após a Guerra Fria, a inteligência dos EUA acredita que permaneceu operacional. Como resultado, a ameaça latente da IA pode estar a reforçar a maleta nuclear tradicional. Putin recebeu-a depois de assumir o poder em 1999. Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder, começou a funcionar. Já Putin faz questão de a exibir constantemente em eventos públicos.
Os códigos criptografados para a pasta nuclear de Putin exigem outras duas pastas, que estão na posse do ministro da Defesa Sergei Shoigu e do chefe de gabinete Valeri Gerasimov. O ‘Cheguet’ é um sistema de controlo que inclui um botão vermelho e vários botões brancos, um dos quais pode ser usado para dar a ordem de ataque ao Estado-Maior, cujo tenente-general seria o responsável final pelo lançamento do ataque nuclear. ‘Kavkaz’, um sistema de telecomunicações criptografado de comunicação entre oficiais militares, faz parte desse mecanismo.
As ameaças nucleares têm levantado a possibilidade de Putin estar a usar a “teoria do homem louco”. “Às vezes é muito sábio simular a loucura”, disse Niccol Machiavelli sobre essa estratégia. Daniel Ellsberg, um teórico da estratégia nuclear, explicou em 1959 que se um líder de um país é considerado louco, ele ou ela pode fazer ameaças mais eficazes contra outro país. Durante a Guerra Fria, foi Richard Nixon quem a colocou em prática, como o seu antigo chefe de gabinete reconheceu no livro ‘The Ends of Power’ – se os adversário de Nixon acreditavam que seria capaz de soluções extremas, usava para ganhar mais poder de negociação.













