A Inteligência Artificial (IA) demonstrou extraordinária capacidade de procura entre milhares de compostos químicos para não só identificar candidatos a medicamentos mas também em pensar em possíveis armas químicas – assustadoramente boa, aliás, segundo um estudo publicado na revista ‘Nature Machine Intelligence’.
Uma equipa da farmacêutica ‘Collaborations Pharmaceuticals’, de Raleigh, Carolina do Norte (EUA), reaproveitou uma Inteligência Artificial relacionada com a pesquisa de medicamentos para um estudo inovador, que foi capaz de identificar com sucesso 40 mil novas armas químicas em apenas 6 horas, com algumas a mostrarem-se notavelmente semelhantes ao agente nervoso mais potente alguma vez criado. Entre os compostos inventados pela IA, estavam alguns semelhantes ao VX, um agente nervoso extremamente tóxico, que pode causar espasmos mesmo em pequenas doses.
Os cientistas, em entrevista ao ‘Verge’, mostraram-se chocados com o quão incrivelmente fácil foi. “Para mim, a preocupação era o quão fácil era fazer. Muitas das coisas que usamos estão disponíveis gratuitamente. Pode fazer o download de um conjunto de dados de toxicidade de qualquer lugar. Se souber codificar em Python e tiver alguns recursos de aprendizagem de máquina, provavelmente após um bom fim de semana de trabalho poderia construir algo com esse modelo generativo impulsionado por conjuntos de dados tóxicos”, revelou Fabio Urbina, principal autor do artigo. “Foi isso que nos fez pensar em publicar este artigo: este tipo de uso indevido tem de facto uma barreira de entrada muito baixa.”
Nas 6 horas de volta da IA, ela foi capaz de alguns desenvolvimentos assustadores – quando foi direcionada para gerar compostos semelhantes a agentes nervosos, sugeriu o VX; o mesmo agente nervoso usado no assassinato do irmão de Kim Jong-un, da Coreia do Norte, além de outros agentes usados em guerra química.
Também foi capaz de projetar agentes previstos para serem ainda mais tóxicos do que o VX: os investigadores afirmaram que, embora as previsões não sejam verificadas (“certamente não querem verificar isso”, atiraram os cientistas), os modelos preditivos têm sido confiáveis. Provavelmente haverá alguns falsos positivos e seria necessário que o composto fosse sintetizado para ser testado, por isso ficou pouco claro quantos destes compostos seriam realmente tóxicos.
A equipa de investigadores acredita que este deve ser um momento de abrir os olhos para o uso da IA na descoberta de medicamentos, destacando a facilidade de uso indevido que esses algoritmos podem ter. “Sem ser excessivamente alarmista, isso deve servir de alerta para os nossos colegas da comunidade de ‘IA na descoberta de medicamentos'”, escrevem os autores. “A realidade é que isto não é ficção científica. Somos uma empresa muito pequena num universo de muitas centenas de empresas que usam software de IA para a descoberta de medicamentos. Quantos deles sequer consideraram as possibilidades de reaproveitamento ou uso indevido?”, finalizaram.













