Os preços dos alimentos sobem em flecha e a fúria está já a fazer-se sentir em boa parte da população de vários países da Europa Central e de Leste, sobretudo porque ali os salários já são, em geral, mais baixos do que nos países da Europa Ocidental.
São contas fáceis de entender, como conta o jornal Politico: em novembro, mês mais recente com dados comparáveis, o preço médio dos alimentos e das bebidas não alcoólicas em toda a UE aumentou 2,9%, avançou a agência de estatísticas Eurostat. Já no bloco de leste, o aumento roçou o dobro ou mais: 5,4% na Hungria, 6,1% na Polónia, 6,2% na Roménia e 6,8% na Bulgária.
Com eleições à porta – já em abril, por exemplo, na Hungria, onde o nacional-conservador Viktor Orbán procura ser eleito – os líderes daqueles países multiplicam-se agora em negociações para fazer aprovar novos regulamentos que permitam controlar o aumento dos preços.
Na semana passada, Orbán anunciou que os preços do açúcar, farinha, leite, óleo de cozinha, carne de porco e peito de frango voltariam para os níveis de Outubro – uma medida que, justificou, ajudaria a proteger as famílias húngaras. Mas não só: também a Sérvia e a Macedónia do Norte já congelaram temporariamente os preços de produtos como o pão, o açucar e o óleo de girassol.
Mas medidas como estas não são bem-vistas por todos. Por exemplo, na Polónia, um deputado do PiS (sigla para Lei e Justiça, em polaco), o maior partido com assento parlamentar no país, provocou todo um alvoroço depois de sugerir uma medida semelhante. É que, como assinalou logo, alto e bom som, a oposição, a última vez que se aprovou uma medida semelhante foi durante o regime comunista.
Já na Roménia, Marius Micu, responsável pela pasta da agricultura, há algum tempo que também assumiu a intenção governamental de regular, centralmente os preços – depois de reconhecer que “é difícil intervir num mercado livre”.
A verdade é que os tempos que se avizinham não se esperam fáceis, com previsões oficiais de dificuldades de abastecimento crescentes nos próximos meses. Segundo o Eurostat, estes são os países onde as pessoas gastam uma maior proporção dos salários em alimentos: mais de 16% na Polónia e Hungria, 19% na Bulgária e 25,1% na Roménia. Nos países da UE, a média era de 13,5% em 2020.
“O aumento do preço dos alimentos tem aqui um impacto muito maior porque o rendimento per capita é muito inferior ao de outros países europeus”, justifica Ionuț Dumitru, especialista do Raiffeisen Bank, na Roménia.
Este pico no preço dos alimentos – o mais alto dos últimos dez anos – era algo já previsto pela FAO, a agência das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, resultado de uma série de fatores como o aumento da procura, uma oferta limitada de certos produtos, escassez de mão-de-obra provocada pela pandemia e ainda as condições meteorológicas extremas nos principais países produtores.
Mas não só. A crise energética em curso na Europa é outro agravante, tendo feito disparar também o preço do gás – um aumento com grande impacto na agricultura dado que o gás natural, como combustível fóssil, é um importante ingrediente dos fertilizantes à base de nitrogéneo. Daí que, para países como a Polónia, a Roménia e a República Checa, uma possível solução seja a redução das taxas de IVA para a electricidade e gás, o que permitiria, indiretamente, baixar o preço dos produtos nos supermercados.












