Infeções, óbitos e internamentos “vão continuar a subir e é altamente provável” que surja uma nova variante, alerta Carmo Gomes

O ponto de situação foi feito pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes, à Multinews. 

Simone Silva

Portugal enfrenta atualmente um recrudescimento da pandemia de Covid-19, tanto a nível de infeções, como de internamentos e de óbitos. O ponto de situação foi feito pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes, à Multinews.

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“Neste momento estamos com uma média de 20.600 novos casos por dia, o que representa um aumento significativo. Basta recordar que há uma semana a média diária era de 13 mil casos”, afirmou.

Segundo o também professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), “o Rt está com um valor relativamente alto, entre 1,2 e 1,3, a nível nacional e e em praticamente todas as regiões. A única exceção é a Madeira, que têm um Rt igual a 1 e não tem tido um aumento por enquanto”.

“As idades em que a incidência é mais elevada são sobretudo entre os 12  os 24 anos, em que se registam aproximadamente quatro mil novos casos por dia. Mas o aumento é generalizado a todas as idades. Nós estamos especialmente preocupados com os maiores de 70 anos, que estão com cerca de 2500 casos por dia”, aponta.

Carmo Gomes esclarece que “esta subida começou a desenhar-se de forma consistente no dia 26 de abril, pouco tempo depois da decisão de fim da obrigatoriedade das máscaras. Nessa altura, a subvariante da Ómicron que dominava era a BA.2., agora é a BA.5, segundo o INSA”.

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Isto acontece num dia em que Portugal registou quase 34 mil casos diários. Há mais de três meses que o país não tinha tantos casos diários da Covid-19: esta segunda-feira foram registados 33.939 novos casos positivos, um valor superior ao de qualquer dia de 2020 ou 2021 e apenas ultrapassado pelo pico da quinta vaga, entre janeiro e fevereiro deste ano – é preciso recuar até 8 de fevereiro deste ano.

Na última semana, Portugal confirmou mais de 157 mil novos casos da Covid-19, para uma incidência semanal de 1.529 casos por 100 mil habitantes em sete dias – a mais alta em todo o mundo.

Internamentos e óbitos também sobem

“Mas mais do que o número de casos, preocupa-nos o impacto hospitalar. O número de pessoas internadas com Covid-19 esteve estável ao longo dos meses de março e abril, mas na primeira semana de maio começámos a notar um aumento”, adianta o especialista.

Assim, os dados mostram que “em enfermaria temos neste momento 1.368 pessoas internadas, quando há uma semana tínhamos 1.110, por isso, houve aqui um aumento de cerca de 200 pessoas. Em UCI temos 79 pessoas, também uma subida face aos 55 de há uma semana”.

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“A grande maioria dos internados, cerca de 70%, são pessoas com mais de 70 anos. Mas também há pessoas mais novas: entre os 60 e os 69 anos correspondem a 12%. Há uma certa preocupação com este sinal de subida nos hospitais”, alerta.

Quanto aos óbitos, segundo Carmo Gomes “também começaram a subir recentemente. Neste momento estamos com uma média de 22 por dia, há uma semana estaríamos com cerca de 19”.

“O indicador que o Governo tinha usado do número de óbitos a 14 dias por milhão de habitantes está em 31, a média estabelecida era os 20. Mas é melhor esquecer este indicador, que tem uma certa arbitrariedade. O que interessa é a tendência, se estão ou não a subir e de facto estão”, resume.

As pessoas que mais morrem, acrescenta, “têm essencialmente mais de 80 anos. Neste mês de maio este grupo representa 78% dos óbitos, ou seja, em cada 10 pessoas que morrem com Covid-19 quase oito têm mais de 80 anos”.

“No entanto, note-se que este aumento dos óbitos não significa que a doença esta mais perigosa. Temos um indicador da letalidade, em que ponderamos o número de mortes pelo número de casos que ocorreram e que permanece muito baixo e estável, em 0,2%”, ressalva.

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Números vão continuar a subir

Questionado sobre quantos casos poderiam ser registados nos próximos tempos, o investigador não arrisca números. “É muito difícil fazer previsões, porque a probabilidade de sermos infetados depende muito do nosso sistema imunitário.”, sublinha, adiantando que o sabe é que “vamos continuar a subir”.

“O estado imunitário da população portuguesa é muito alto e muito heterogéneo, já quase toda a gente ou foi infetada ou vacinada, umas há mais tempo, outras há menos e a forma que o sistema imunitário tem de evitar a infeção depende de há quanto tempo foram infetadas, porque a concentração de anticorpos no sangue decai ao fim de cerca de quatro meses”, explica.

Por isso, adianta, “este panorama complexo de imunidade da população torna muito difícil de prever como é que os números vão evoluir. Mas há uma boa notícia: se nós estamos vacinados e/ou infetados estamos protegidos contra doença mais grave e é por isso que a subida nos hospitais é muito mais modesta”.

Nova variante deve surgir no Inverno. Especialista apela à vacinação

Carmo Gomes destaca também o importante papel da vacinação, sublinhando que “a Comissão decidiu antecipar o reforço, precisamente para proteger os mais velhos, porque a maior parte destas pessoas já foi vacinada há mais de 5, 6 meses, o que significa que o nível de proteção contra infeção é bastante baixo”.

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“Agora muito provavelmente estas pessoas vão necessitar daqui a quatro ou cinco meses, de voltar a ter um reforço que será a quinta dose, para os preparar para o próximo outono, em que é altamente provável que tenhamos outra subvariante da ómicron capaz de infetar as pessoas”, refere.

Neste sentido, o epidemiologista deixa “um apelo a todas as pessoas, que tendo mais de 18 anos e ainda não fizeram o seu reforço do esquema primário de vacinação, o façam”.

“Há muitas pessoas que não têm a terceira dose, principalmente com menos de 50 anos. Por exemplo, entre os 20 e os 39 anos apenas metade das pessoas fizeram o reforço. Muitas não o fizeram porque foram infetadas, mas passado aproximadamente 4, 5 meses convém que o façam”, aponta.

Primeiro, sublinha, “porque a concentração de anticorpos no sangue imediatamente sobe para níveis bastante altos, que vão proteger as pessoas durante cerca de cinco meses da infeção. A segunda razão e mais importante é que está agora bem claro que a terceira dose reforça a imunidade contra a doença grave e protege contra mais variantes”.

Recuo de medidas “não é o caminho”

Sobre um eventual recuo no alívio de regras, o especialista não concorda. “Eu não advogo isso, sei que há quem pense que foi precipitado o fim das máscaras, mas eu não vou por esse caminho, não me parece que seja essa a solução”, adianta.

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“Isto porque a Ómicron está a evoluir de uma forma diferente da anterior. A ligação evolutiva entre as variantes passadas do vírus não existia e estas caracterizavam-se por ser mais patogénicas e transmissíveis. Quando surge a Ómicron o panorama muda, porque esta não é mais transmissível, tem é capacidade de escapar aos anticorpos e de se desdobrar em novas subvariantes”, conclui.

 

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