A guerra na Ucrânia entra no quinto ano e, longe das frentes de combate, um outro campo de tensão ganha contornos cada vez mais inquietantes: o espaço aéreo da NATO.
Segundo uma análise publicada no ‘The Conversation’, aeronaves, drones e mísseis russos violaram dezenas de vezes o espaço aéreo de países da Aliança Atlântica desde fevereiro de 2022. À primeira vista, muitos desses episódios parecem incidentes isolados — um drone que cai aqui, uma incursão breve ali, destroços encontrados dias depois. Mas quando observados em conjunto, revelam um padrão que está longe de ser acidental.
A investigação sistemática citada pelo ‘The Conversation’ aponta para uma clara aceleração. Entre 2022 e 2024, as violações cresceram de forma gradual: quatro incidentes em 2022, cinco em 2023, seis em 2024. Já em 2025, o número saltou para 18 casos confirmados — três vezes mais do que no ano anterior e mais de metade de todos os episódios registados desde o início da invasão em larga escala.
Não se trata apenas de quantidade. A natureza dos incidentes também mudou. Em 2022, predominavam incursões breves ou descobertas posteriores de mísseis e drones. Em 2025, surgiram episódios de maior intensidade: drones que penetraram profundamente em território polaco, permanências prolongadas no espaço aéreo romeno durante várias horas e até enxames de drones que levaram ao encerramento temporário de aeroportos civis.
A dimensão geográfica também se alargou. Se nos primeiros anos os casos se concentravam sobretudo no flanco leste, em 2025 foram registadas ocorrências que envolveram seis membros da NATO, incluindo França e Turquia. O sobrevoo de drones não identificados sobre a base naval francesa de Île Longue — onde estão estacionados submarinos nucleares — foi particularmente simbólico.
Este padrão encaixa no que analistas classificam como “táticas da zona cinzenta”: ações suficientemente provocatórias para testar limites e recolher informação, mas calibradas para evitar desencadear uma resposta formal ao abrigo do Artigo 5.º da NATO. Ainda assim, em 2025, dois incidentes levaram à invocação do Artigo 4.º — o mecanismo de consulta quando um Estado-membro sente a sua segurança ameaçada.
A questão que se coloca não é apenas militar, mas estratégica. O perigo pode não residir numa violação isolada, mas na acumulação contínua de pequenas pressões que obrigam a NATO a reagir, testar sistemas de defesa aérea e manter um estado de prontidão constante.
À medida que o conflito na Ucrânia se prolonga, a fronteira entre incidente e estratégia torna-se mais ténue. E a verdadeira interrogação talvez seja esta: até que ponto esta escalada gradual faz parte de uma campanha deliberada para medir — e desgastar — a determinação da Aliança?
Num cenário em que cada incursão parece menor por si só, o desafio pode estar precisamente na soma de todas elas.













