Portugal continua a enfrentar um verão catastrófico no que toca a incêndios florestais. Segundo dados do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), desde 1 de janeiro de 2025 arderam já cerca de 250 mil hectares de mato e floresta, equivalentes a 25 cidades de Lisboa ou 62 do Porto, causando quatro mortes, centenas de feridos e prejuízos ainda não totalmente contabilizados, informa o Correio da Manhã.
A região Centro concentra a maior parte da área ardida, com 177 852 hectares, destacando-se as Beiras e Serra da Estrela, onde Trancoso registou 58 mil hectares queimados e Sabugal 21 mil. Na Região de Coimbra, arderam 68 809 hectares, dos quais 65 mil em Arganil e 3 350 na Lousã. Na Região de Viseu Dão Lafões, a maior área foi em Sátão (13 777 hectares). O Norte do país registou 62 685 hectares ardidos e lidera no número de incêndios, com 4 002 dos 6 859 incidentes nacionais, correspondendo a 58,3% do total.
Apesar de 2025 ser o quinto ano com menor número de incêndios desde 2002, a área ardida torna-o o terceiro com mais hectares queimados até 25 de agosto, atrás apenas de 2005 (300 820 hectares) e 2003 (420 847 hectares). Em 2017, ano do trágico incêndio de Pedrógão que matou 65 pessoas, a área ardida até esta data foi de 225 712 hectares, mostrando a dimensão extraordinária dos fogos atuais.
De acordo com o SGIFR, ainda não foi possível apurar a causa de 37% dos incêndios de 2025, responsáveis por 91% da área queimada. Entre as causas conhecidas, o uso do fogo lidera com 17%, seguido de atos de incendiarismo, que correspondem a 16% dos casos. Estes dados evidenciam a predominância da ação humana, intencional ou negligente, no agravamento da catástrofe.
Tendências históricas e científicas
O investigador e engenheiro florestal Paulo Fernandes aponta ao Correio da Manhã que os incêndios recentes apresentam “manchas queimadas cada vez maiores e cada vez menos pequenas áreas ardidas”, caracterizando um regime de fogo cada vez mais severo. Esta tendência é explicada por alterações climáticas, redução de ignições pequenas, maior sucesso no ataque inicial, abandono da exploração florestal e agrícola, e estratégias de supressão de incêndios que privilegiam proteção civil em detrimento da gestão ativa do território.
Segundo Fernandes, a estratégia de gestão de combustíveis tem privilegiado intervenções lineares, ao invés da criação de mosaicos que poderiam reduzir o risco de grandes incêndios. A homogeneidade das paisagens, resultante de incêndios passados e abandono rural, cria um terreno fértil para fogos de grandes dimensões, tornando o fenómeno mais difícil de controlar e potencialmente mais devastador.
Os 250 mil hectares já destruídos, representando metade de toda a área do Algarve ou cerca de três vezes a Madeira, evidenciam a gravidade da situação em 2025. A combinação de fatores climáticos, humanos e de gestão florestal sugere que Portugal enfrenta uma nova era de incêndios de grandes dimensões, impondo reflexão sobre prevenção, planeamento territorial e políticas de combate e mitigação.







