A tentativa de reaproximação entre o Reino Unido e a União Europeia, lançada a 19 de maio último, está em risco de ruir. O motivo é financeiro: Bruxelas exige um pagamento de 6,75 mil milhões de euros a Londres para permitir que as empresas britânicas participem no SAFE, o novo fundo europeu destinado a reforçar a Defesa do continente face à ameaça russa e ao retraimento dos Estados Unidos.
De acordo com o ‘El Mundo’, o valor é considerado “inaceitavelmente alto” pelo Governo britânico, que vê neste impasse uma ameaça direta à estratégia pró-europeia do primeiro-ministro Keir Starmer. O plano de aproximação à UE, um dos pilares da nova política externa de Downing Street, poderá ficar comprometido se não houver entendimento até ao final deste mês.
A exclusão britânica teria consequências significativas para o setor da defesa europeu. Segundo a publicação espanhola, o Reino Unido mantém uma profunda interligação industrial com o continente: cerca de 435 mil empregos diretos e indiretos dependem da atividade de defesa ligada à União.
A BAE Systems, o maior fabricante de equipamento militar da Europa, tem um volume de negócios comparável ao das três principais concorrentes juntas — a italiana Leonardo, a francesa Thales e a Airbus SE, que reúne capitais de França, Países Baixos e Espanha. Uma saída britânica do SAFE reduziria drasticamente a capacidade industrial do bloco europeu e colocaria em causa projetos conjuntos de alta tecnologia militar.
Debate interno divide líderes europeus
Os 27 Estados-Membros estão divididos sobre se devem oferecer descontos ao Reino Unido para viabilizar a sua adesão ao fundo. Alemanha, França e Itália — as três principais potências militares da UE — mostram-se relutantes em abrir a porta a um concorrente de peso, receando perder contratos estratégicos para a indústria britânica.
Em Londres, Keir Starmer enfrenta críticas tanto internas como externas. O primeiro-ministro procura manter uma “reaproximação discreta” a Bruxelas, evitando reacender o sentimento anti-europeu alimentado por figuras como Nigel Farage e o Reform UK. Ainda assim, o dossiê da defesa continua a ser uma das poucas áreas com consenso transversal no Parlamento britânico, onde a maioria defende o papel ativo do país na segurança europeia, especialmente perante a Rússia — um adversário histórico desde a Guerra da Crimeia.
Dinheiro e detalhes travam a aproximação
Mais do que princípios políticos, é o custo que trava o diálogo. A disputa sobre o pagamento de 6,75 mil milhões repete a velha tensão entre Londres e Bruxelas sobre contribuições e benefícios comuns. Mesmo outros acordos paralelos, como a harmonização de padrões fitossanitários acordada em maio, avançam lentamente, refletindo a dificuldade em reconstruir confiança após o Brexit.
O SAFE representa o maior programa de financiamento militar da história da União Europeia, com um orçamento total de 150 mil milhões de euros financiado através da emissão conjunta de dívida. Os países da UE têm até ao final do mês para apresentar propostas de investimento, mas o Reino Unido só poderá participar se houver entendimento político sobre os termos da sua contribuição.
Sem acordo, o projeto poderá perder um dos seus principais pilares industriais — e a reaproximação entre Londres e Bruxelas ficará mais uma vez adiada.













