Impacto das Finanças Descentralizadas no setor financeiro tradicional

Por Fábio Jesus, R&D Researcher na agap2IT

 

À medida que as tecnologias blockchain se tornam proeminentes e parte do discurso quotidiano, a descentralização das atividades financeiras torna-se também um tópico importante. Este conceito surge algum tempo após a revolução francesa como uma proposta para a delegação do poder de decisão no governo e é atualmente aplicada como uma forma de dinamizar a burocracia empresarial. A descentralização através da aplicação de blockchain está a tornar as atividades financeiras – outrora disponibilizadas única e exclusivamente por entidades financeiras – mais abrangentes.

A monopolização dos mercados

Observando a forma como este setor opera, é possível identificar uma monopolização substancial nas atividades financeiras por parte de instituições como bancos e fundos de cobertura (hedge funds). Aos investidores em nome individual atribui-se apenas uma ínfima fração do mercado, pois dispõem de capital e conhecimento para reduzir investimentos de alto risco.

A forma como as instituições democratizam o poder de compra nos mercados coloca investidores individuais em situações indesejáveis, onde a perda de capital é quase garantida. Por vezes, em resposta a esta monopolização, ocorrem iniciativas de ativismo que resultam em repercussão drásticas. Um exemplo destas situações foi o caso da GME, em janeiro de 2021.

Devido a esta feroz competição, grande parte da população mundial sente que existem demasiados obstáculos e prefere não participar nestas atividades. Além disso, de acordo com a World Bank no seu estudo realizado em 2017, cerca de 1.7 biliões de adultos não têm acesso a qualquer tipo de conta bancária – os considerados Bankless. Deduz-se que tal se atribui ao facto de viverem em zonas menos desenvolvidas ou empobrecidas.

O que são as DeFi?

A rede Ethereum é lançada em 2015 a fim de colmatar uma das limitações que impede a bitcoin de ser uma alternativa a entidades financeiras. Esta rede permite implementar conjuntos de funcionalidades complexas – chamados contratos – onde um utilizador interage com uma carteira digital para poder executá-las. A partir deste conceito, são desenvolvidos diversos projetos tais como câmbios, jogos e até projetos de teor humorístico.

Em 2020, num evento que mais tarde seria conhecido como “Summer of DeFi”, um destes projetos – de nome Compound – lançou um contrato de recompensas com base em empréstimos de diversas moedas digitais (tokens). Este contrato tornou-se tão popular que causou uma demanda por estes tokens, aumentando o seu valor. É também durante este evento que se registaram muitos mais projetos, com o mesmo intuito de replicar o acontecimento. Atualmente, o ecossistema DeFi é constituído por protocolos de seguradoras, empréstimos, entre outros. É também nestes novos projetos que observamos uma espécie de democratização de protocolos na forma de governança, um dos tópicos mais interessantes de DeFi, onde os seus membros podem participar de forma ativa na tomada de decisões do protocolo, mediante determinadas condições.

A inclusão é de longe o conceito mais importante das DeFi. Em vez de uma conta bancária, o utilizador deverá criar uma carteira digital sem quaisquer requisitos, salvo um dispositivo com acesso à internet. Através de diferentes serviços, poderá adquirir uma quantidade de tokens nativos à rede em troca de um montante em moeda fiduciária, como o euro. Estes tokens são importantes pois são necessários para a aquisição de tokens de projeto e ao pagamento de execução de transações (gas). O processo de participação no projeto é geralmente muito padronizado, seguindo tipicamente um conjunto de interações explicitas com o contrato. No entanto, a participação nestes projetos deverá ser devidamente ponderada devido ao risco associado. Como tal, deverá ser realizada uma análise diligente aos seus contratos para evitar dissabores.

Substituir as instituições por um mercado totalmente descentralizado?

Apesar de existirem opiniões que defendem ambos os extremos, não devemos encarar as instituições como algo a ser substituído por entidades descentralizadas. Dado que são regidas por legislações governamentais, existe uma responsabilidade quando o cliente é indevidamente lesado. Esta segurança cria uma base de confiança entre o cliente e a instituição, algo fundamental para a economia e para a prevenção de comportamentos de alto risco.

Por outro lado, as atividades financeiras vieram para ficar. São propostas aliciantes e têm uma abordagem sem limitações, livre de censura e acessível a todos, o que também traz o reverso da moeda precisamente por estes mesmos fatores: aumentam as hipóteses de comportamentos de risco e, por conseguinte, de fraude. Como tal, é necessário estudar os casos onde estes projetos poderão, ou não, serem vantajosos para o utilizador.

Dito isto, deixo-vos uma questão. O quão interessante seria vermos uma abordagem mista onde as entidades financeiras facilitariam o acesso a estas atividades financeiras de forma segura, como parte dos seus serviços?

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