Novas imagens de satélite divulgadas esta semana mostram um tanque de armazenamento de crude em chamas na ilha iraniana de Sirri, no Golfo Pérsico, num momento em que Teerão enfrenta um bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos e após semanas de guerra com Washington e Israel.
A fotografia, captada a 15 de abril pelos satélites Sentinel-2 da Agência Espacial Europeia, revela uma coluna de fumo a erguer-se sobre uma instalação de armazenamento de petróleo bruto em Sirri, um terminal petrolífero offshore do Irão.
De acordo com o grupo de monitorização marítima TankerTrackers.com, que reportou inicialmente os danos, o incêndio terá destruído pelo menos um grande depósito com capacidade para armazenar cerca de um milhão de barris de crude — aproximadamente um quinto da capacidade total da ilha.
As exportações de petróleo são vitais para a economia iraniana, fortemente sancionada, sendo que mais de 90% do crude exportado tem como destino refinarias chinesas. Apesar do conflito, o Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou ter deliberadamente poupado infraestruturas energéticas iranianas, indicando que estas poderiam servir como trunfo negocial e como forma de estabilizar os preços do petróleo após a guerra.
Desde o cessar-fogo anunciado a 7 de abril, forças norte-americanas, israelitas e iranianas não voltaram a trocar fogo. Ainda assim, meios de comunicação estatais iranianos relataram explosões em Sirri e no polo petrolífero da ilha de Lavan poucas horas após a pausa nos combates.
Na altura, a agência Mehr não identificou responsáveis pelas explosões e não foram divulgadas atualizações posteriores. No mesmo dia, foram também reportados alegados ataques com drones contra infraestruturas energéticas no Kuwait e na Arábia Saudita.
Não é claro se o incêndio agora visível em Sirri está diretamente ligado às explosões de 7 de abril. Contudo, imagens da Agência Espacial Europeia datadas de 10 de abril já mostravam densas colunas de fumo no mesmo local.


Incêndio em Lavan terá sido controlado
Uma imagem separada captada a 10 de abril indicava igualmente um incêndio na instalação de armazenamento de crude na ilha de Lavan. Dois dias depois, novas imagens sugeriam que o fogo teria sido controlado.
A empresa estatal National Iranian Oil Company não respondeu de imediato a um pedido de comentário durante o horário laboral.
Especialistas em matérias-primas sublinham que Sirri é significativamente mais pequena do que a ilha de Kharg, principal terminal petrolífero do Irão, responsável por mais de 90% das exportações do país no ano passado.
Bloqueio naval trava exportações
Apesar de o Irão continuar a bombear petróleo do continente para os seus terminais offshore, um bloqueio naval norte-americano, que entrou no quarto dia, deverá impedir a saída de navios com crude. A medida poderá obrigar Teerão a acumular produção, reduzindo a atividade a montante e afetando as receitas petrolíferas.
“Oito navios foram agora obrigados a inverter rota e ZERO embarcações conseguiram romper desde o início do bloqueio dos EUA na segunda-feira”, afirmou o U.S. Central Command numa atualização divulgada na quarta-feira.
O bloqueio surgiu após uma primeira ronda de negociações de paz, mediadas no Paquistão entre delegações norte-americanas e iranianas, ter falhado. Antes dessas conversações, o Irão tinha restringido o tráfego no Estreito de Ormuz a embarcações não iranianas, exigindo que transitassem por um corredor designado dentro das suas águas territoriais.
Ameaças de alargamento do conflito marítimo
Também na quarta-feira, Ali Abdollahi, principal comandante militar iraniano, classificou o bloqueio como uma violação do cessar-fogo e afirmou que o país tomaria “medidas decisivas”, incluindo a restrição do comércio no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã e no Mar Vermelho.
Um eventual alargamento das tensões poderá colocar em risco rotas alternativas cruciais para a exportação de crude por parte de países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita. Analistas da Lloyd’s List alertaram que o grupo Huthis do Iémen — aliado do Irão — poderá intensificar ações no estreito de Bab el-Mandeb caso receba novas instruções de Teerão.
“Uma mudança de diretiva de Teerão que resulte em perturbações nos fluxos de petroleiros no Mar Vermelho fecharia outra artéria significativa para as exportações de petróleo do Médio Oriente”, referiu a publicação especializada.
Diplomacia em curso entre Teerão e Pequim
No plano diplomático, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, disse ao seu homólogo chinês, Wang Yi, que o governo iraniano procura “uma solução racional e realista através de negociações pacíficas”, segundo nota divulgada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da China.
Wang Yi afirmou que “a soberania, segurança e direitos e interesses legítimos do Irão enquanto país ribeirinho do Estreito de Ormuz devem ser respeitados e salvaguardados”, acrescentando que “a liberdade e segurança da navegação no estreito acessível internacionalmente também devem ser garantidas”. Sublinhou ainda que restaurar a normalidade no tráfego marítimo constitui um apelo partilhado pela comunidade internacional.
Segundo Amena Bakr, analista de energia para o Médio Oriente na empresa de inteligência de matérias-primas Kpler, o novo bloqueio naval norte-americano criou “uma divisão clara”. “Navios ligados ao Irão estão parados ou congelados no Golfo de Omã. Entretanto, embarcações não iranianas continuam a circular livremente”, afirmou num relatório divulgado na quinta-feira.
A analista acrescentou que não há sinais de melhoria no tráfego através do Estreito de Ormuz. “Os navios que passam continuam a ser apenas alguns, muito longe dos níveis anteriores à guerra. Mesmo que o conflito terminasse amanhã, não estamos a ver um regresso imediato ou uma recuperação das perdas de oferta que estamos a observar.”





