A Greenpeace e outras organizações de defesa ambiental acusam a IKEA de estar a contribuir para a rápida degradação das ricas florestas da Roménia. Duas investigações recentes revelaram o impacto da gigante do mobiliário nas montanhas dos Cárpatos, uma das maiores áreas de florestas primárias e antigas da Europa.
Segundo um relatório da Greenpeace, mais de 50% das florestas antigas da Roménia desapareceram nos últimos 20 anos, devido à corrupção e à fraca aplicação das leis. A Ingka Group, maior franquia da IKEA, tem desempenhado um papel significativo nesta destruição, que ocorreu até mesmo em áreas supostamente protegidas.
Ameaças às Florestas Romenas
Cerca de 3.000 quilómetros quadrados das florestas da Roménia são protegidos por leis europeias como sítios Natura 2000. No entanto, a indústria madeireira do país, dominada pela chamada “máfia da madeira”, está repleta de corrupção sistémica e práticas florestais irresponsáveis. Em 2019, dados revelaram que quase 40 milhões de metros cúbicos de madeira são extraídos das florestas do país anualmente, metade de forma ilegal.
Organizações como a Agent Green e o Bruno Manser Fonds investigaram nove áreas florestais, sete das quais pertencentes à Ingka Group. O relatório “IKEA: Smart Outside, Rotten Inside” detalha pelo menos 50 violações suspeitas da legislação da UE e da Roménia, incluindo o abate excessivo de florestas biodiversas e a falha em preservar árvores de alta biodiversidade.
Uma investigação separada da Greenpeace CEE ligou sete fornecedores da IKEA à destruição sistemática de florestas antigas, incluindo dois sítios protegidos pela Natura 2000. Pelo menos 30 produtos desses fabricantes foram rastreados até lojas IKEA em 13 países, incluindo França, Alemanha e Reino Unido.
Resposta da Ingka e Inter IKEA Group
A Ingka Group e a Inter IKEA Group refutam todas as acusações. A Ingka Group afirmou que “as autoridades não encontraram evidências de não conformidade com os regulamentos florestais” e que as suas práticas estão “alinhadas com os rigorosos padrões ambientais estabelecidos por leis nacionais e organismos de certificação internacional, como o Forest Stewardship Council (FSC)”.
A Inter IKEA Group acrescentou que não aceita madeira de florestas antigas protegidas, afirmando que “as práticas de sourcing mencionadas no relatório da Greenpeace são legais e aderem aos regulamentos locais e da UE”.
Ines Gavrilut, do Bruno Manser Fonds, salienta que “todos sabem que a Roménia está repleta de corrupção. As coisas podem parecer legais no papel, mas investigações no terreno encontraram evidências claras de degradação e destruição”. Gavrilut acredita que a IKEA se esconde atrás do FSC, uma certificação que, segundo críticos, falha em proteger as florestas antigas.
Simon Counsell, ex-diretor da Rainforest Foundation UK e um dos fundadores do FSC, critica a certificação, alegando que não garante que a madeira provenha de fontes aceitáveis ambiental ou socialmente, acusando-a de greenwashing.
Necessidade de Leis Vinculativas
Špela Bandelj Ruiz, da Greenpeace CEE, destaca a necessidade de leis da UE juridicamente vinculativas para proteger e restaurar a natureza. “Apenas com leis vinculativas da UE para proteger e restaurar a natureza, empresas como a IKEA não estarão presas ao problema de contribuir para a destruição do património natural europeu, como nos Cárpatos romenos”.
O modelo de negócio da IKEA, que promove a “fast furniture”, está em crescimento. Em 2019, a IKEA consumia uma árvore por segundo e continua a expandir-se, possuindo mais de 2.800 quilómetros quadrados de floresta em todo o mundo, incluindo mais de 500 quilómetros quadrados na Roménia.
As florestas da Roménia, que são hotspots de biodiversidade, estão a desaparecer rapidamente. Contudo, ainda é possível salvá-las. “Primeiro, a Ingka e a IKEA precisam admitir os erros, para que possamos ter um diálogo construtivo”, diz Gavrilut. “Eles têm o poder de fazer muito bem”.














