A Ordem dos Médicos Veterinários definiu orientações internas para os profissionais lidarem com pessoas que se identifiquem espiritual ou psicologicamente com animais, conhecidas como ‘therians’. A decisão surge depois de o fenómeno ter ganhado visibilidade nas redes sociais e após uma reportagem da ‘CNN Portugal’, citada pela ‘Euronews’, ter abordado casos de jovens que, no estrangeiro, procuraram ser atendidos em clínicas veterinárias.
Em Portugal, a Ordem garante que ainda não recebeu qualquer relato de médicos veterinários confrontados com pedidos de consulta por parte de pessoas que se identifiquem como animais. Ainda assim, decidiu antecipar-se e esclarecer os limites legais da atuação destes profissionais.
A orientação é clara: médicos veterinários não podem realizar diagnósticos, prescrever tratamentos ou praticar qualquer ato clínico em pessoas, mesmo que estas se identifiquem com um animal. Esses atos estão reservados a médicos inscritos na Ordem dos Médicos.
A OMV recomenda que, perante uma situação deste tipo, os profissionais mantenham uma postura respeitosa e informativa, explicando que a medicina veterinária está legalmente limitada ao tratamento de animais. A pessoa deve ser encaminhada para um médico ou profissional de saúde adequado.
No esclarecimento interno, a Ordem lembra que a lei portuguesa reconhece dimensões da identidade pessoal, como a identidade e expressão de género, mas não prevê qualquer estatuto jurídico de “identidade animal”. “A pessoa que se identifica como animal continua, para o Direito, a ser uma pessoa humana”, sublinha a OMV.
O fenómeno ‘therian’ ganhou notoriedade sobretudo através do ‘TikTok’ e de outras redes sociais. Em muitos vídeos, adolescentes e jovens adultos surgem com máscaras, caudas ou outros adereços, imitando comportamentos animais, como andar de quatro, miar ou ladrar. Algumas pessoas identificam-se com cães, gatos, raposas, lobos, ursos ou outros animais.
A ‘Euronews’ recorda que chegou a estar marcado, em fevereiro, um encontro de ‘therians’ em Vila Real, mas o evento acabou por não se realizar depois de críticas e hostilidade geradas pela divulgação do grupo.
Especialistas em saúde mental e comportamento social têm acompanhado o crescimento do fenómeno, sobretudo entre adolescentes e jovens adultos. Para já, a preocupação da Ordem dos Médicos Veterinários é sobretudo jurídica e profissional: garantir que os veterinários sabem como responder se forem confrontados com um pedido deste tipo, sem desrespeitar a pessoa, mas também sem ultrapassar os limites legais da sua profissão.













