Iberização das empresas … e da decisão!

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

 

As multinacionais acrescentam valor e o ideal será ter empresas Portuguesas multinacionais que exportem e dinamizem a economia. Por outro lado este efeito de globalização da economia e do trabalho, permite uma diversidade de nacionalidades na gestão das empresas. Visões culturalmente distintas são positivas nas organizações, acrescentam perspetiva e multiculturalismo. Mas não acrescentam valor, na maior parte dos casos. Uma multinacional com sede fora de Portugal que envia um gestor estrangeiro, mantém o poder de decisão fora de Portugal. Ou seja, somos apenas uma “cash cow” de curto prazo, pois Portugal, pela dimensão da sua economia, não é estratégico. Não faz parte dos países top 5 Europeus, na maioria dos sectores, talvez só na cortiça. Nada disto seria um problema mas é!

Os investimentos estratégicos das empresas nos mercados pequenos (como Portugal), têm muito a ver com os gestores, com a forma como tentam atrair investimentos das suas empresas nos países que gerem. E infelizmente, cada vez mais, as empresas multinacionais, englobam Portugal e Espanha como um único mercado, a Ibéria que o Afonso Henriques teve a visão de terminar. Por falta de  dimensão, por falta de conhecimento das diferenças entre povos. E por norma o centro de decisão fica em Madrid ou Barcelona. Portanto Portugal torna-se uma extensão de Espanha, mais uma província económica. A Andaluzia tem 8.427 milhões de pessoas, muito aproximado de Portugal. Pelo que a decisão (e o investimento) fica do lado de lá da fronteira. A grande vantagem é que todos os estrangeiros que aqui trabalham, não querem partir. Mas as multinacionais praticam a  rotação dos gestores, promovendo a multiculturalidade, pelo que todos partem e a maioria nunca mais regressa. Começam a ganhar experiência nos países pequenos como Portugal e depois vão “subindo” na cadeia de decisão e dimensão, esquecendo-se de Portugal (apenas fica a meteorologia, segurança e a gastronomia nas suas memórias). Inclusivé, por vezes, ouço algumas pessoas falar que é mais fácil a um estrangeiro agendar reuniões com os políticos decisores Portugueses, que a um Português. Algo que no nosso país vizinho não acontece, primeiro e sempre, os Espanhóis.

Como disse, isto é comum em todos os sectores, não é um risco “de per si”. Muito menos falo de protecionismo, pois defendo uma Europa aberta e livre de circulação de pessoas e mercadorias, de ideias e pensamentos, com práticas e legislação comum ao nível estratégico. Apenas é um risco porque um gestor que fique em Portugal 2 ou 3 anos, apenas vai tirar o “leite da vaca” (como na matriz BCG), nunca vai fazer de Portugal “uma estrela”, atraindo investimentos estratégicos para este mercado pequeno e de curto prazo. E isso nunca acontece nos mercados grandes, pois aí naturalmente, a decisão depende muito mais dos “headquarters” do que do “poder local”. Portanto defender medidas económicas e fiscais de atração de investimento estrangeiro é fundamental. Mas por norma esquecemos duma muito importante, sem chauvinismos nem nacionalismos básicos, mas apenas perspetiva estratégica do que é melhor para o País: manter a existência de gestores Portugueses na gestão de empresas instaladas em Portugal é fundamental, ao nível da economia e do IDE, do emprego, da fiscalidade, da comunidade e da sociedade.


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