Hungria agradece a Trump por retomar diálogo com a Rússia: “O mundo tornou-se um lugar mais seguro”

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Péter Szijjártó, afirmou esta terça-feira que o governo de Budapeste está “extremamente grato” ao presidente Donald Trump pela sua intervenção diplomática para tentar mediar um cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia.

Pedro Gonçalves
Abril 8, 2025
19:22

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Péter Szijjártó, afirmou esta terça-feira que o governo de Budapeste está “extremamente grato” ao presidente Donald Trump pela sua intervenção diplomática para tentar mediar um cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia. As declarações surgem numa altura em que a Hungria se mantém numa posição isolada dentro da União Europeia e da NATO, ao continuar a defender uma estratégia de aproximação a Moscovo, em contraste com a maioria dos seus parceiros ocidentais.

Durante um discurso proferido no think tank Royal United Services Institute (RUSI), em Londres, Szijjártó elogiou a reeleição de Trump e destacou o impacto do seu regresso na reabertura de canais de comunicação direta com a Rússia. “Estamos extremamente gratos ao presidente Trump. O mundo tornou-se um lugar mais seguro, porque, se os russos e os americanos estão a falar entre si, isso cria circunstâncias mais seguras do que a ausência dessas conversações diretas”, afirmou.



A posição do governo húngaro, liderado por Viktor Orbán, tem-se mantido em contraciclo com os restantes países da União Europeia e da Aliança Atlântica desde o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Orbán tem reiteradamente apelado a um cessar-fogo imediato e tem mantido relações próximas com o Kremlin, recusando seguir a linha dura adotada por Bruxelas contra Moscovo.

Szijjártó, membro do partido Fidesz e aliado político de Orbán, tem visitado Moscovo várias vezes desde o início da guerra. Alinhado com os ideais do movimento “America First” de Trump, o ministro afirmou que a Hungria segue uma política de “Hungary First”, centrada nos seus próprios interesses estratégicos e económicos.

Cessar-fogo rejeitado por Moscovo
Segundo Szijjártó, os esforços diplomáticos dos EUA resultaram recentemente num acordo preliminar com Kiev para um cessar-fogo de 30 dias. A proposta, mediada por Steve Witkoff — enviado especial de Trump para o Médio Oriente —, foi apresentada ao presidente russo, Vladimir Putin, numa visita pessoal a Moscovo. Apesar da tentativa, Moscovo recusou os termos, alegando que não abordavam as “causas profundas” da guerra.

Ainda assim, os EUA chegaram a acordos separados com a Rússia e com a Ucrânia para interromper ataques a infraestruturas energéticas e no Mar Negro. Contudo, os progressos em direção a uma trégua abrangente têm sido limitados. Segundo a Casa Branca, Trump encontra-se “frustrado” tanto com Kiev como com Moscovo.

Enquanto os aliados europeus da Ucrânia assistem com desconfiança à aproximação entre Washington e Moscovo, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem criticado qualquer tentativa de restabelecer contactos diretos com Putin. Em novembro de 2024, Zelensky classificou como “abrir a caixa de Pandora” a chamada telefónica entre o então chanceler alemão Olaf Scholz e o presidente russo.

Dependência energética e aposta na diversificação
A Hungria, país sem acesso ao mar e sem reservas energéticas próprias, mantém uma forte dependência das importações russas de gás. “A Rússia tem-se mostrado um fornecedor fiável para nós”, disse Szijjártó, embora sublinhando que Budapeste deseja diversificar o seu abastecimento. “Nos últimos anos, ninguém apresentou uma solução melhor, mais barata ou mais fiável do que aquela que temos”, acrescentou.

Enquanto a maioria dos países europeus tem procurado cortar ligações com a energia russa — como aconteceu com a recente saída dos três Estados bálticos da rede elétrica russa —, a Hungria mantém uma postura distinta, favorecendo o pragmatismo económico sobre sanções.

Szijjártó também destacou a importância do comércio para a economia húngara, afirmando que até 85% do PIB do país provém de exportações. “Para nós, a diplomacia tem de estar sempre ligada às questões comerciais e económicas. Estamos a atrair investimentos de todas as direções geográficas”, afirmou.

Para além da Rússia, a Hungria tem aprofundado relações económicas com a China. “Existe a possibilidade de uma parceria económica significativa e mutuamente benéfica com a China”, afirmou em junho de 2024 o ministro húngaro dos Assuntos Europeus, János Bókas, ao Politico.

Szijjártó criticou ainda o que considera ser uma crescente divisão mundial promovida por blocos regionais. “A última coisa que queremos é que o mundo volte a ser dividido em blocos — e é isso que está a acontecer”, disse, lamentando que a União Europeia se tenha “isolado” não só dos Estados Unidos, como também de regiões como a Rússia, a China e África.

Num tom crítico em relação às sanções europeias contra Moscovo, o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro afirmou que essas medidas “falharam” em enfraquecer a capacidade militar russa. “A Rússia está longe de estar de joelhos em termos económicos”, disse.

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