Espera-se que o pico de casos de Covid-19 em Portugal seja atingido daqui a duas semanas, havendo uma descida “vertiginosa” depois disso. Contudo, as mortes ainda devem subir mais no próximo mês, que arranca já amanhã.
Especialistas ouvidos pela Multinews falam sobre as previsões e possíveis cenários para os próximos tempos, aliadas à possibilidade de o vírus passar a ser tratado como endémico, muito em breve.
“Nós já tínhamos previsto que o pico da pandemia seria mais para o fim de janeiro, início de fevereiro. A questão principal para determinar quando é o pico é saber a quantidade de população ainda suscetível de ser infetada”, explica Milton Severo, investigador de epidemiologia do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP).
O especialista esclarece que “isso depende da cobertura da vacinação que agora é alta e da capacidade de mitigação das medidas atuais que são muito pequenas porque estamos quase a voltar ao estado normal, por isso temos dois fatores opostos”.
“Se a eficácia da vacina for inferior isso fará com que o pico seja mais tarde, porque a quantidade de pessoas suscetíveis será maior” refere o investigador, sublinhando que as previsões variam por isso mesmo.
Quanto às mortes, “o que sabemos por um lado é que a vacina continua a proteger, por isso não teremos valores tão altos como no ano passado, mas ainda vão subir mais no próximo mês, porque há um ‘delay’, de cerca de 20 dias entre a infeção e a morte”, explica.
Também Gustavo Tato Borges corrobora esta posição. “Já sabíamos que nesta fase com a Ómicron e a normalização do dia a dia, haveria sempre um aumento da mobilidade e do risco, que se decidiu aceitar. O pico tem vindo a atrasar-se furto dessa progressiva abertura da sociedade”, refere.
“As últimas previsões apontavam para a segunda semana de fevereiro o pico, mas que até ao fim desse mês manteríamos números altos e depois viríamos a descer de forma vertiginosa”, aponta.
Nesse sentido, o médico de saúde pública sublinha que “o pico de internamentos e de óbitos acontece depois deste pico de casos e portanto sabemos que os hospitais vão passar por mais pressão durante o mês de fevereiro inícios de março, exatamente fruto deste enorme aumento de casos”.
“Felizmente ainda há margem para esse aumento de internamentos, as nossas linhas vermelhas são 75% da capacidade máxima para a Covid e continuam por atingir, ou seja, não há grande alarme para já”, indica.
Quanto às mortes, Tato Borges diz que “é possível que tenhamos um aumento”, mas “que não se prevê que seja na ordem do que aconteceu há um ano. Em termos de gravidade nada aponta para uma situação muito dramática, é uma questão de manter alguma prevenção”, sublinha.
Fim da fase pandémica?
Quanto à possibilidade de Portugal estar no fim da fase pandémica, passando a endémica entre fevereiro e março, os especialistas são mais cautelosos. “Antes disso temos que pesar muitos fatores, nomeadamente se conseguimos ou não controlar o vírus e se há um equilíbrio sazonal”, refere Milton Severo.
“Temos de ter cuidado com a sobrecarga na testagem que tem sempre algum efeito na diminuição da capacidade de transmissão”. Isto porque, testa-se menos, há menos casos, adianta.
Milton Severo tem dúvidas se “será por sobrecarga na testagem que estamos a tomar esta decisão, de dizer que é endémico, ou se é uma questão de saúde pública, porque o vírus já está controlado”.
“Gostava que fosse a segunda opção, mas neste momento isso ainda não está claro. Por isso é que recomendo a que se espere mais um pouco, até passar o Inverno e só depois, na Primavera tomava essa medida”, defende.
Por sua vez, Tato Borges sublinha que Portugal irá “caminhar para essa situação, a evolução da doença faz com que ela passe a ser normal entre nós, o que não quer dizer que não possa ter picos ou momentos de preocupação”.
“Mas à partida será assim que Portugal e todo o mundo irá abraçar a Covid-19 daqui a alguns meses” quando terminar esta vaga, pela altura da primavera, prevê o médico de saúde pública.
Isso implica, adianta, “uma investigação para perceber se é uma situação fora do comum, ou se é normal, e se for já não vamos ter os isolamentos, as baixas nem os testes a toda a toda a gente”, conclui.


