Hospitais em Xinjiang abortaram gestações em estágio avançado e mataram recém-nascidos como parte da missão da China para apagar a cultura uigur, denunciou um médico que trabalhava na região em entrevista à Radio Free Asia (RFA).
Desde 2016, segundo noticia a ‘CNBC’, a China já internou pelo menos 1 milhão de uigures em centenas de campos de prisioneiros, os quais insiste em designar como “centros de reeducação”, nos quais os uigures são forçados, desde logo, a abandonar sua herança cultural e religião.
Contudo, grande parte da repressão em curso envolve também a limitação dos direitos reprodutivos dos uigures e a redução da taxa de natalidade. Em 2017, a China aprovou uma lei que limita os uigures e outras minorias étnicas a ter três filhos se morarem em áreas rurais ou dois se viverem em áreas urbanas .
Sob a política de filho único da China, abandonada em 2016, os cidadãos chineses Han – pessoas do grupo étnico maioritário – foram encorajados, e por vezes vezes forçados, a tomar anticoncepcionais e fazer abortos para manter a taxa de natalidade baixa, enquanto minorias como os uigures foram autorizados a ter dois ou três filhos, relatou a Associated Press.
Hasiyet Abdulla, um médico uigur que passou 15 anos a trabalharo em hospitais em Xinjiang, a viver agora na Turquia, disse à RFA que quando era esperado que uma criança nascesse numa família que já tinha dois ou três filhos ou que teve um filho nos últimos três anos, a gravidez seria interrompida, mesmo aos “oito e nove meses”.
O médico assegurou mesmo que membros da equipa médica “chegaram a matar os bebés depois de nasceram”. “Tratava-se de cumprir uma ordem que vinha de cima, uma ordem impressa e distribuída em documentos oficiais. Os hospitais são multados se não obedecerem. E claro, acabam por fazê-lo”, reforçou.
Em junho, um relatório da AP já detalhava como a China estava a esterilizar à força muitos uigures e adaptando alguns casos a dispositivos intrauterinos para prevenir a gravidez.
O esforço para reduzir o número de uigures nascidos a cada ano parece estar a funcionar já que a taxa de natalidade em Xinjiang caiu quase 24% em 2019, de acordo com a AP .
Muito do que acontece nos campos é secreto, mas no relato de ex-presidiários pode ler-se que muitos foram submetidos a experiências médicas, forçados a redecorar suas casas para que parecessem tradicionalmente chinesas e até a cantar canções de propaganda para conseguir comida.
A China também já foi acusada de extrair os órgãos de alguns uigures mas Pequim negou a acusação.
Os campos de detenção são condenados por grande parte do mundo – mas tal como no caso das críticas à repressão contra Hong Kong, a China mostra pouco interesse em mudar os seus hábitos.













