Um surto de hantavírus a bordo de um navio de expedição polar colocou a indústria dos cruzeiros sob escrutínio internacional. Mas afinal, quão comuns são estes episódios? E existe um risco real acrescido para quem viaja em alto-mar? Eis um explicador completo, em formato de perguntas e respostas, sobre a realidade das doenças em embarcações turísticas em mar alto.
É comum haver surtos em navios de cruzeiro?
A suspeita de um surto de hantavírus a bordo do navio de expedição MV Hondius, operado pela Oceanwide Expeditions, colocou sob escrutínio as condições sanitárias nos cruzeiros, mas os dados disponíveis indicam que este tipo de ocorrência é extremamente raro. Pelo menos três pessoas morreram durante a viagem, que partiu da Argentina a 1 de Abril com 147 passageiros e tinha como destino Cabo Verde.
A World Health Organization confirmou a identificação de sete casos de hantavírus — dois confirmados e cinco suspeitos — e indicou que três pessoas seriam evacuadas medicamente em Cabo Verde, enquanto o navio prosseguiria para as Ilhas Canárias, numa travessia estimada em três dias. A empresa admitiu que não existe ainda um ponto definitivo de desembarque para os restantes passageiros, estando a ser equacionadas escalas em Las Palmas ou Tenerife para novos rastreios clínicos.
Pode apanhar-se hantavírus num cruzeiro?
Apesar da mediatização do caso, não há registo público de outros surtos de hantavírus em navios de cruzeiro. O vírus transmite-se sobretudo através do contacto com roedores ou com a sua urina, saliva e fezes, especialmente quando esses materiais são perturbados e se tornam aerossóis passíveis de inalação. Embora incomum, a transmissão entre pessoas pode ocorrer.
Permanece por esclarecer se o surto teve origem a bordo ou durante excursões em terra. Ao longo da expedição, os passageiros visitaram regiões remotas como a Antártida, a Geórgia do Sul, Nightingale Island, Tristan da Cunha, Santa Helena e Ascensão, locais onde há presença de vida selvagem e, em alguns casos, de roedores. A directora para a preparação e prevenção de epidemias e pandemias da OMS, Maria Van Kerkhove, admitiu à BBC que a hipótese de trabalho aponta para uma combinação de exposições: por um lado, contacto com roedores em diferentes ilhas; por outro, possível transmissão entre contactos próximos, nomeadamente pessoas que partilharam cabines.
Qual é o vírus mais comum nos cruzeiros?
Se o hantavírus é uma raridade no contexto marítimo, o mesmo não se pode dizer do norovírus, frequentemente associado a surtos de gastroenterite aguda. Este vírus altamente contagioso provoca vómitos, diarreia, náuseas e dores abdominais.
Nos Estados Unidos, os Centros para a Prevenção e Controlo de Doenças (CDC) registaram 23 casos de norovírus em cruzeiros em 2025, números que apenas abrangem navios com escala em portos norte-americanos. Ainda assim, considerando que cerca de 30 milhões de pessoas viajam anualmente em cruzeiros em todo o mundo, o risco estatístico permanece reduzido. Dados dos CDC indicam que a probabilidade de um passageiro desenvolver problemas gastrointestinais no mar é de cerca de um em 5.500, representando aproximadamente 1% de todos os casos reportados, sendo mais provável adoecer em terra do que a bordo.
É provável ficar doente num cruzeiro?
A concentração de milhares de pessoas num espaço relativamente confinado favorece a circulação de agentes infecciosos, o que explica a percepção de risco. Essa ideia ganhou força durante a pandemia de covid-19, quando o navio Diamond Princess ficou em quarentena no Japão durante duas semanas após um surto de coronavírus entre passageiros e tripulantes.
Contudo, os dados do CDC mostram que os contextos mais frequentes de surtos gastrointestinais são unidades de saúde, seguidas de restaurantes, eventos com catering, escolas e creches. Nicky Kelvin, editor do site especializado The Points Guy, sublinha que os passageiros não estão particularmente expostos a doenças relacionadas com higiene em cruzeiros, uma vez que o sector implementa padrões rigorosos de limpeza e inspecção desde 1970. Acrescenta ainda que a percepção negativa associada ao norovírus resulta do facto de os navios serem obrigados a reportar todos os casos às autoridades, ao contrário de muitas instituições em terra.
Que regras sanitárias seguem os cruzeiros?
As companhias de cruzeiros cumprem os Regulamentos Sanitários Internacionais da OMS e o Programa de Sanitização de Embarcações do CDC, que impõem questionários de saúde antes do embarque e declarações sanitárias obrigatórias às autoridades portuárias antes da atracagem. Cada navio é sujeito a múltiplas inspecções anuais, anunciadas e não anunciadas, devendo alcançar pelo menos 86 pontos em 100 para cumprir os critérios de higiene que abrangem cabines, cozinhas, salas de refeições, piscinas e áreas infantis.
A limpeza é reforçada de forma contínua, com desinfecção regular de superfícies de contacto frequente, como mesas, corrimões, puxadores e torneiras. Os passageiros são incentivados a lavar as mãos à entrada de restaurantes e buffets, onde existem dispensadores de desinfectante. As companhias associadas à Cruise Lines International Association mantêm ainda a obrigatoriedade de pelo menos um profissional de saúde qualificado permanentemente disponível para consultas no posto médico ou nas cabines.
O que acontece quando há um surto a bordo?
Quando é detectado um caso de norovírus ou outra doença contagiosa, o passageiro é geralmente isolado na cabine até estar 24 horas sem sintomas, com serviço de quartos assegurado. A blogger Jenni Fielding, responsável pelo Cruise Mummy, refere que já viveu situações deste tipo em cerca de 10% das suas viagens e descreve um reforço imediato das medidas: desaparecem saleiros e pimenteiros substituídos por saquetas individuais, os passageiros deixam de se servir no buffet e a tripulação intensifica a desinfecção de todas as superfícies entre utilizações.
A mesma especialista recomenda medidas simples de prevenção, como evitar tocar em corrimões sempre que possível e usar os nós dos dedos para premir botões de elevador. Desde a pandemia, muitos navios novos foram concebidos com soluções adicionais de higiene, incluindo lavatórios à entrada dos restaurantes e a redução do auto-serviço nos buffets. Apesar do impacto mediático de casos como o do MV Hondius, os dados disponíveis sustentam que os cruzeiros continuam a figurar entre as formas de viagem com protocolos sanitários mais exigentes e monitorizados.










