Quatro meses após o cessar-fogo imposto pelos EUA ter interrompido a guerra em Gaza, o Hamas parece estar a recuperar terreno — não no campo de batalha contra Israel, mas no controlo interno do território. De acordo com os britânicos da ‘BBC’, apesar da devastação causada pelo conflito, o movimento islamista voltou a reforçar a sua presença nas ruas, nos mercados e nas estruturas administrativas.
A guerra desmantelou grande parte das unidades militares organizadas do Hamas e matou a maioria dos seus líderes. Gaza ficou amplamente destruída, com mais de 72 mil mortos, segundo o Ministério da Saúde controlado pelo grupo. Ainda assim, moradores ouvidos pela ‘BBC’ afirmam que o Hamas já retomou o controlo de mais de 90% das áreas onde mantém presença.
“O Hamas retomou o controlo de mais de 90% das áreas onde está presente”, afirmou Mohammed Diab, ativista em Gaza, que descreveu que as forças policiais e de segurança voltaram às ruas, controlam o crime, supervisionam procedimentos administrativos e reforçam a influência sobre tribunais e serviços públicos.
Nos mercados, comerciantes relataram a reimposição de taxas e impostos. Vários pediram anonimato por receio de represálias. Um feirante contou à ‘BBC’ que a autarquia continua a cobrar rendas e que, caso não paguem, enfrentam ameaças de expulsão. “Dizem que, se não pagarmos, vão atirar-nos para a rua com os nossos pertences”, afirmou.
Outro vendedor descreveu inspeções regulares e exigências financeiras difíceis de suportar num território onde a economia está em ruínas. Um comerciante explicou que os impostos sobre mercadorias importadas podem começar nos 20.000 shekels — cerca de 225 dólares (aproximadamente 207 euros) — e que, em caso de recusa, há relatos de uso de força e intimidação.
Segundo Mohammed Diab, o Hamas estará a reconstruir discretamente um sistema de controlo financeiro semelhante ao que existia antes da guerra. Os pagamentos seriam feitos em numerário para evitar rastreamento bancário, e existiria já uma base de dados com comerciantes que importam bens para a Faixa de Gaza.
O porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, reconheceu que estão a ser aplicadas “medidas excecionais”, justificando-as com o estado de emergência no território. Alegou que se trata de decisões administrativas necessárias para impedir lucros excessivos e manter a ordem, negando que as ações estejam relacionadas com fins militares.
Do lado israelita, a leitura é distinta. O porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF), tenente-coronel Nadav Shoshani, afirmou à ‘BBC’ que o Hamas encara o cessar-fogo como uma oportunidade para se reagrupar. “Esta guerra não termina enquanto o Hamas não for desarmado”, declarou, sublinhando que, apesar de enfraquecido, o grupo tenta reconstruir capacidades.
O plano de paz promovido por Donald Trump prevê uma segunda fase que inclui o desarmamento do Hamas e a reconstrução de Gaza. No entanto, permanecem dúvidas sobre como esse processo será implementado — a quem seriam entregues as armas, quais seriam incluídas e como seria feita a verificação.
Hazem Qassem afirmou à ‘BBC’ que o grupo acredita ser possível abordar a questão das armas de forma a eliminar o pretexto para novos ataques israelitas, desde que o processo seja compatível com o plano norte-americano. Ainda assim, no terreno, os sinais apontam para uma consolidação do controlo interno antes de qualquer desmantelamento.
Entre ruínas, escassez de serviços básicos e um território ainda profundamente fragilizado, o cessar-fogo trouxe um novo tipo de disputa: a luta pelo poder e pela reconstrução política de Gaza.



