Habitação: entre a mercadoria e o direito – um apelo à responsabilidade do Estado

Opinião de Pedro Ventura, Presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses

Executive Digest

Por Pedro Ventura, Presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses

 

Enquanto Presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses, falo todos os dias com famílias exaustas, jovens sem perspetivas, idosos angustiados e trabalhadores que, mesmo com emprego, já não conseguem pagar uma casa. Falamos de um país em que há casas a mais e pessoas sem casa a mais. Um paradoxo gritante que denuncia o fracasso das políticas públicas

 Por muito que se tente normalizar, aquilo que hoje se vive em Por-tugal em matéria de habitação não é normal. Não é conjuntural. Não é uma simples flutuação de mercado. É uma crise estrutural, profunda e socialmente devastadora, que ameaça a coesão do país, empurra gerações para a exclusão e transforma aquilo que devia ser um direito constitucional — a habitação — num privilégio para poucos.

Enquanto presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonen-ses, falo todos os dias com famílias exaustas, jovens sem perspeti-vas, idosos angustiados e trabalhadores que, mesmo com emprego, já não conseguem pagar uma casa. Falamos de um país em que há casas a mais e pessoas sem casa a mais. Um paradoxo gritante que denuncia o fracasso das políticas públicas.

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Portugal tem hoje cerca de 1,7 casas por família, mais de 700 mil fogos devolutos e, ao mesmo tempo, milhares de pessoas a viver em sobrelotação, em condições indignas, em alojamen-tos informais ou literalmente na rua. Temos rendas entre as mais caras da Europa e salários entre os mais baixos. Estamos no topo dos preços e no fundo dos rendimentos. Esta equação é social-mente explosiva — e ninguém pode fingir surpresa.

A crise da habitação deixou de ser apenas económica. Trans-formou-se numa crise social, geracional, territorial e democrática. A juventude portuguesa, altamente qualificada, vive encurralada entre rendas incomportáveis, contratos precários e a impossibili-dade de planear o futuro. A emancipação é adiada, a natalidade cai, a mobilidade social estagna. Criámos a trágica divisão entre os «herdeiros» e os «salariados»: os insiders que recebem patri-mónio familiar e os outsiders que sobrevivem apenas do salário.

Hoje, uma parte muito significativa das famílias portugue-sas já gasta mais de 40% e 50% do seu rendimento com a casa, quando o limite socialmente aceitável deveria situar-se nos 30%. Isso significa menos dinheiro para saúde, alimentação, educação, cultura. Significa empobrecimento, mesmo trabalhando.

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Ao mesmo tempo, assistimos à desertificação funcional das cidades. Professores, enfermeiros, médicos, forças de segurança e outros trabalhadores essenciais são empurrados para a periferia ou simplesmente recusam colocação em Lisboa e no Porto porque… não conseguem viver onde trabalham. Este é um sinal gravíssimo de que o mercado falhou – e o Estado não pode continuar ausente.

 

O erro histórico: entregar a habitação ao mercado

Esta crise não caiu do céu. É o resultado de décadas de opções políticas erradas, que favoreceram a propriedade privada como modelo quase exclusivo, abandonaram o arrendamento e desman-telaram a habitação pública. Enquanto na Europa o parque habi-tacional público ronda os 9% a 15%, em Portugal mal chega aos 2%. Isto significa que o Estado praticamente abdicou de intervir como regulador estrutural.

A habitação passou a ser vista como ativo financeiro, não como bem essencial. A financeirização, os vistos gold, os regimes fiscais especiais, os fundos imobiliários e a explosão do alojamento local transformaram as casas em instrumentos de especulação. Os não residentes compram a valores 1,7 a 2 vezes superiores aos da média nacional, estabelecendo patamares inalcançáveis para quem vive e trabalha em Portugal.

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Neste contexto, não espanta que os jovens, mesmo qualifica-dos, sejam empurrados para fora do país. Estamos a exportar uma geração inteira porque falhámos na política de habitação.

 

Respostas políticas: entre paliativos e riscos inflacionários

Os dois programas mais recentes — Mais Habitação e Cons-truir Portugal — refletem bem esta dificuldade estrutural em defi-nir uma política de Estado consistente.

O primeiro tentou regular: limitar o alojamento local, aca-bar com os vistos gold imobiliários, tentar mobilizar devolutos, apoiar o arrendamento. Mas fê-lo sem construir parque público em escala suficiente, gerando insegurança jurídica, resistência dos proprietários e resultados muito aquém das promessas.

O segundo programa mudou o foco para a oferta e a simpli-ficação, mas voltou a cometer um erro clássico: estimular a pro-cura sem garantir oferta imediata. Isenções de IMT e garantias públicas para jovens, sem aumento rápido do parque habitacional, arriscam apenas inflacionar ainda mais os preços — como várias entidades independentes já alertaram.

Em ambos os casos, faltou uma coisa essencial: coragem polí-tica para enfrentar a financeirização da habitação e construir um verdadeiro parque público robusto.

 

A urgência de regular, registar e fiscalizar

Enquanto associação representativa dos inquilinos, temos sido claros: não há mercado saudável sem regras, sem registo e sem fis-calização. Hoje, o arrendamento continua a ser uma das ativida-des económicas menos reguladas do país. Isto é inaceitável.

Defendemos há anos a criação de uma Plataforma Nacional de Registo do Arrendamento, obrigatória, na qual constem os con-tratos, os intervenientes, as condições dos imóveis e os valores praticados. Defender isto não é atacar proprietários — é garantir transparência.

Defendemos também uma Autoridade Fiscalizadora do Arren-damento, com meios reais. Caso contrário, continuaremos a ter rendas ilegais, contratos simulados, despejos abusivos, exploração de imigrantes e uma economia paralela em plena expansão.

 

Segurança jurídica para inquilinos e senhorios

A instabilidade contratual é outro dos problemas do sistema. O inquilino não sabe se pode criar raízes e o senhorio não sabe se terá continuidade, o que destrói a confiança e bloqueia o funcio-namento saudável do mercado. É fundamental estabelecer prazos mínimos de contrato com renovações automáticas que garantam estabilidade, criar um regime jurídico claro e unificado que acabe com o labirinto legislativo atual e assegurar a autonomização do arrendamento habitacional em relação ao não habitacional. Sem segurança jurídica não há mercado equilibrado — há medo.

 

Seguros em vez de abusos

Chegou o momento de substituir garantias arcaicas e abusi-vas por soluções modernas. Deve existir um Seguro de Renda da responsabilidade do senhorio e um Seguro Multirriscos da res-ponsabilidade do inquilino, ambos obrigatórios, universais e com prémios acessíveis. Só assim se elimina a chantagem das cauções excessivas, das fianças humilhantes e das exigências desproporcio-nadas que hoje bloqueiam o acesso à habitação.

 

Estimular o arrendamento — mas com justiça

Não basta pedir mais casas no mercado, é preciso criar incenti-vos corretos. Devem existir benefícios fiscais para contratos longos e com rendas comportáveis, bem como controlo de rendas através de critérios objetivos como o valor patrimonial, os rendimentos

do inquilino e a localização. É igualmente indispensável pôr fim ao protecionismo fiscal injustificado a grandes fundos e investido-res estrangeiros e reforçar o apoio direto às famílias com taxa de esforço superior a 30%. Estimular o arrendamento não pode sig-nificar proteger a especulação.

 

Investir seriamente em construção pública

Aqui reside o erro central de todas as políticas até hoje: não se construiu habitação pública em escala suficiente. É indispensá-vel reabilitar todo o património público devoluto para fins habi-tacionais, usar terrenos públicos para cooperativas de habitação e impor que 25% das novas construções em terrenos públicos sejam para arrendamento acessível. Deve ainda fixar-se como objetivo estratégico atingir, no médio prazo, pelo menos 5% de habitação pública, inscrever no Orçamento do Estado entre 1% e 2% do PIB por ano para a habitação, reintroduzir as rendas resolúveis e criar programas estruturados para estudantes, trabalhadores desloca-dos e funções públicas. Sem parque público, o Estado continuará refém do mercado.

 

Resolver conflitos com justiça, não com simulacros

O atual modelo de resolução extrajudicial falhou. É funda-mental devolver aos tribunais, ou criar tribunais especializados, com competência efetiva para resolver conflitos entre senhorios e inquilinos, garantindo direitos, equilíbrio e defesa real para ambas as partes.

 

Fiscalidade ao serviço da função social da casa

A política fiscal deve combater a especulação e não premiá-la. É necessário avançar para uma tributação progressiva e escalo-nada das rendas, garantir igualdade fiscal entre particulares, setor social e empresarial e criar uma dedução fiscal universal para todos os arrendatários.

 

Defender os contratos antigos e o comércio de proximidade

Não podemos abandonar os inquilinos com contratos anterio-res a 1990, nem os pequenos senhorios vulneráveis, nem as coleti-vidades, o comércio tradicional e as lojas históricas que dão vida às cidades e garantem coesão social.

 

A mudança de paradigma: da política de Governo à política de Estado

Portugal precisa, com urgência, de uma política de Estado para a habitação assente em três pilares: o aumento massivo do parque público até, pelo menos, 9 a 10%, a regulação séria da financeiri-zação, do alojamento local e da procura externa, e a mobilização da oferta, dos devolutos e da capacidade de construção. Sem isto, continuaremos apenas a distribuir paliativos enquanto o edifício social continua a rachar.

 

Conclusão: a casa como lar, não como luxo

A habitação é hoje o maior fator de desigualdade em Portugal. A maior causa de ansiedade coletiva. O maior bloqueio à mobili-dade social. O maior obstáculo à fixação de jovens e trabalhado-res. O maior teste à seriedade do nosso Estado social.

O direito à habitação digna não pode continuar a ser um artigo bonito na Constituição e invisível na prática. Uma sociedade que transforma casas em ativos especulativos e pessoas em descartá-veis está a falhar enquanto comunidade.

Cabe ao Estado assumir o seu papel de regulador, construtor, financiador e garante do direito à habitação. Cabe aos municípios planear com responsabilidade. Cabe aos cidadãos exigir. E cabe às associações, como a nossa, continuar a denunciar, propor e lutar.

Porque uma casa não é um produto financeiro. Uma casa é um lar. E um lar é a base da dignidade humana.

 

 

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