Os data centers que atendem as aplicações usadas por milhões de europeus estão famintos por energia e água – e vão precisar de mais nos próximos anos. Até 2030, os data centers devem responder por 3,2% da procura de eletricidade na UE, um salto de 18,5% em relação a 2018. Ao mesmo tempo, a Europa está sob pressão para reduzir a procura energética, particularmente no gás.
A água também está a tornar-se um recurso escasso – o verão de 2022, o mais quente já registado, viu as principais hidrovias europeias atingirem um ponto baixo histórico.
A Comissão Europeia tenciona anunciar um plano, neste outono, sobre o impacto ambiental dos data centers. Segundo o jornal ‘POLITICO’, até 2025 terão de detalhar o seu uso de energia e água. As autoridades públicas “não devem ser colocadas na posição de ter de escolher entre atrair data centers, por um lado, e garantir que empresas e residências tenham acesso à eletricidade, por outro lado”, pôde ler-se no texto da Comissão.
Controlar um sector ‘faminto’ por energia e água é um ato de equilíbrio: à medida que “cada vez mais tarefas de cálculo e capacidades de armazenamento” são feitas na nuvem, os data centers são os locais onde a transição verde e digital corre o risco de atrapalhar um ao outro.
Neste verão, a Meta Platforms desistiu dos planos de construir um data center nos arredores de Zeewolde, uma cidade de 23 mil pessoas perto de Amsterdão, depois de os ativistas locais terem feito lóbi contra um projeto que consumiria energia verde que poderia beneficiar os moradores. “Eles estão a comprar energia verde muito barata. Depois colocam parques eólicos, que na verdade são destinados a residentes na Holanda, mas [em vez disso] vão para um data center”, criticou a ativista local Susan Schaap.
Devido às “temperaturas excepcionalmente altas” que atingiram o Reino Unido em julho, duas unidades mais frias num data center da Oracle sofreram interrupções. O Google no Reino Unido enfrentou problemas semelhantes. Dois dos principais hospitais de Londres sofreram problemas com os seus sistemas de TI, causando semanas de operações canceladas e consultas adiadas.
Se as temperaturas excederem as que os data centers foram projetados para aguentar, cada grau além do limite pode significar perda de cerca de 10 a 15% da capacidade. Numa tentativa de contrariar o calor, alguns data centes no Reino Unido chegaram a enviar funcionários para os seus telhados para pulverizar unidades de arrefecimento com mangueiras – enquanto as pessoas em todo o continente enfrentavam medidas de racionamento de água.
A disponibilidade de energia e os preços sempre desempenharam um papel no cálculo complexo de escolher um local para um novo data center, apontou Landon Marston, professor assistente do Instituto Politécnico da Virgínia, nos Estados Unidos. No “último ano ou dois”, a disponibilidade de água também começou a desempenhar um papel maior nas decisões, acrescentou.
A maior parte da energia nos data centers é usada para alimentar os servidores mas as enormes instalações também produzem calor e precisam de ser arrefecidas. “Muitas vezes há um conflito de interesses: se [um data center] usa mais água, precisa de menos energia mas se usa mais energia precisa de menos água”, disse Ralph Hintemann, investigador sénior do Borderstep Institute for Innovation and Sustainability, um think tank com sede em Berlim.
Os operadores de data centers têm-se tornado mais ecológicos e eficientes e muitos já substituíram a infraestrutura digital mais antiga e menos eficiente, como servidores individuais operados por empresas e Governos – a fusão de todos esses servidores num único local economiza energia, garantem os responsáveis da indústria.
O Governo dos Países Baixos vai reduzir drasticamente o número de data centers, com o nascimento de quatro grandes que vão substituir mais de 60 locais. “O que o Governo holandês conseguiu com a consolidação de quatro grandes centros de dados?”, laertou Stijn Grove, diretor administrativo da Dutch Data Center Association, que representa 95% do mercado holandês de data centers, incluindo operadoras como Google e Microsoft. “Usam metade da energia”, frisou.
Muitas empresas de Big Tech dos EUA comprometeram-se a confiar apenas na energia verde para a energia que usam. Tanto o Google quanto a Meta apontaram para uma promessa de combinar as suas operações – incluindo data centers – com 100% de energia renovável.



