Há um estreito cinco vezes mais longo do que Ormuz de que quase não se fala — e por ali passa ainda mais petróleo

Corredor não é relevante apenas para os combustíveis fósseis: aproximadamente metade de todo o comércio marítimo ligado a tecnologias de energia limpa também passa por ali

Francisco Laranjeira

O mundo continua concentrado no Estreito de Ormuz, mas a crise no Médio Oriente está a reacender a preocupação com outro ponto sensível do mapa global: o Estreito de Malaca. Situado entre Indonésia, Malásia e Singapura, este corredor marítimo liga o Índico ao Pacífico e é visto como um dos maiores pontos de estrangulamento do comércio mundial, numa altura em que cresce o receio de novos bloqueios e de uma escalada geopolítica na Ásia.

A importância de Malaca é gigantesca, frisou a publicação ‘El Economista’. No seu ponto mais estreito, o canal tem apenas 2,7 quilómetros de largura, o que o torna ainda mais estreito do que Ormuz. Ao mesmo tempo, é muito mais longo, com uma extensão entre 800 e 900 quilómetros. Por ali passa cerca de 40% do comércio mundial, incluindo uma parte central dos fluxos de petróleo vindos do Médio Oriente para economias asiáticas como China, Japão e Coreia do Sul.

Os números ajudam a perceber a dimensão do risco. Pela rota de Malaca circulavam, na primeira metade de 2025, cerca de 23,2 milhões de barris diários de petróleo, acima dos 20,9 milhões que passavam por Ormuz. O corredor não é relevante apenas para os combustíveis fósseis: aproximadamente metade de todo o comércio marítimo ligado a tecnologias de energia limpa também passa por ali.

É por isso que o estreito surge como um ponto tão sensível num cenário de tensão crescente entre Estados Unidos e China. Patrulhado pela Sétima Frota americana, Malaca há muito que é visto por Pequim como uma vulnerabilidade estratégica em caso de conflito. Esse receio ficou conhecido como o ‘dilema de Malaca’, expressão usada para descrever a forte dependência chinesa deste corredor marítimo para abastecimento e comércio.

O problema agravou-se nos últimos anos com as disputas territoriais na região, o reforço da projeção militar chinesa e a imprevisibilidade de Donald Trump. Um cenário em que Washington pudesse pressionar ou interferir no corredor, numa crise ligada a Taiwan ou a outro confronto com Pequim, deixou de ser visto apenas como hipótese teórica.

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A geografia também joga contra a estabilidade. A extrema estreiteza do canal, a elevada densidade de tráfego e a sua extensão tornam Malaca particularmente vulnerável a acidentes, atos de pirataria, terrorismo marítimo ou interrupções deliberadas. A proximidade a vários países acrescenta ainda um problema adicional: qualquer incidente cruza rapidamente questões de soberania, segurança regional e coordenação entre Estados.

Outro risco está na escassez de alternativas. Existem rotas secundárias, como os estreitos de Sunda e de Lombok, também no arquipélago indonésio, mas nenhuma oferece a mesma eficiência, frisou a publicação espanhola. Em caso de bloqueio mais sério, o comércio teria de seguir caminhos mais longos e caros, com impacto imediato nos custos e no tempo de transporte.

A crise em torno de Ormuz veio, aliás, aproximar o perigo de Malaca. Ao anunciar o bloqueio do estreito iraniano, Trump afirmou ter ordenado à Marinha americana a interceção de navios em águas internacionais que tivessem pago portagens ao Irão. Ao mesmo tempo, as águas em torno de Malaca tornaram-se relevantes para operações ligadas à chamada ‘frota fantasma’ iraniana, usada para transferir petróleo entre navios e disfarçar vendas a países asiáticos, sobretudo à China.

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O tema já está também a provocar fricções no Sudeste Asiático. Singapura rejeitou liminarmente qualquer ideia de negociar com Teerão o pagamento de portagens em Ormuz e defendeu que a liberdade de passagem marítima é um direito garantido pelo direito internacional. Já a Malásia assumiu uma linha mais favorável ao diálogo com o Irão, o que expôs diferenças de abordagem entre vizinhos num momento particularmente delicado.

A Indonésia surge como peça central neste tabuleiro. Cerca de 70% da energia e do comércio da Ásia Oriental passam pelas suas águas, incluindo Malaca, e Jacarta foi confrontada com uma proposta americana para permitir sobrevoos militares dos EUA no seu espaço aéreo. A hipótese abriu debate dentro do próprio aparelho militar indonésio, onde se teme que o país possa acabar arrastado para contingências regionais fora do seu controlo.

Apesar de todos os riscos, persistem alguns fatores de contenção. Os mecanismos de cooperação entre Indonésia, Malásia e Singapura em torno da segurança de Malaca são hoje considerados mais sólidos do que no passado, e a adesão dos três países à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar funciona como travão institucional a uma degradação mais descontrolada da situação.

Ainda assim, a conclusão que se impõe é clara: Ormuz continua a ser o foco imediato da crise, mas Malaca deixou de ser apenas um risco de fundo. Num mundo onde basta o bloqueio de um só corredor para provocar disrupções globais, o estreito asiático começa a surgir como o próximo gargalo capaz de transformar uma crise regional num problema económico planetário.

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