Há quem queira viver no interior do país, mas faltam investimentos

Por Marta Almeida, Diretora Coordenadora Nacional da DS Imobiliária

 

Muitas foram as famílias portuguesas que durante a pandemia e com a implementação do teletrabalho e de novas relações laborais, optaram por se mudar para o interior do país.

O fenómeno deve-se a vários fatores, dos quais se destacam o preço das casas, mas sobretudo os novos requisitos dos portugueses que surgiram na conjuntura destes últimos dois anos e meio, onde passaram a procurar casas mais amplas, perto da natureza, que trouxessem tranquilidade a quem lá morasse e com espaços ao ar livre. Ou seja, que lhes proporcionassem mais conforto e mais momentos em família. Posto isto, é fácil concluir que os portugueses, após o Covid 19, refletiram e passaram a valorizar e, acima de tudo, a priorizar, a vida pessoal em detrimento do trabalho e é essa a sua definição atual de “qualidade de vida”.

Assistimos aos portugueses a procurar casa nas periferias das grandes cidades, mas vimos muitos outros a mudarem-se para zonas menos densificadas no interior do país. Uma mudança surpreendente para alguns, mas compreensível, uma vez que quando comparamos com as grandes cidades, podemos encontrar no interior de Portugal verdadeiras quintas e herdades a preços bem mais competitivos.

No entanto, por muito que algumas famílias procurem a paz e a tranquilidade que estas localidades mais remotas possam proporcionar, existe pouca atratividade para acompanhar a habitação. Não é em vão que as faixas etárias mais jovens continuam a preferir arrendar quartos a preços bastante elevados nas cidades do que a mudar-se para o interior. É necessário apoiar a economia nestas localidades através da requalificação das vilas e aldeias, tornando-as mais atrativas não só para residentes, mas também para futuros empreendedores que possam desenvolver novos negócios nestas zonas. É imperativo intensificar a criação de infraestruturas de apoio a quem tenha intenções de se mudar para estas zonas, como escolas, clínicas, hospitais, entre tantos outros serviços essenciais que, por vezes, ficam a quilómetros de distância e que em alguns casos até já existiram e acabaram por fechar.

Desta forma, talvez seja possível promover a reversão do êxodo rural, incentivando o regresso de quem saiu para as cidades e que acabam por viver com menor qualidade de vida, onde a habitação é pequena, têm a agitação urbana, mas múltiplos serviços próximos.

O Governo tem vindo a implementar medidas que pretendem incentivar os portugueses a optarem pelas regiões do interior para trabalharem e para viverem e, também, muitas autarquias, implementaram por si mesmas, diversos apoios para estimular o interesse nestas zonas. Temos o Emprego Interior MAIS, que oferece um financiamento a quem pretenda trabalhar no interior, com um acrescento de 20% por cada elemento do agregado familiar, o Programa Regressar que apoia emigrantes que pretendam voltar a Portugal e fixar-se no interior, o Programa Habitar no Interior com rendas mais acessíveis e ainda benefícios fiscais oferecidos pelo Estado para todos aqueles que se desloquem para os territórios do interior de Portugal.

Mas continua a ser insuficiente, porque está em falta, um estímulo às empresas e pequenos negócios para investir nestes territórios, tornando-os mais atrativos para viver. É necessário pensar no interior do país com visão, pois existe a densidade populacional bastante abaixo do esperado e o envelhecimento populacional é cada vez mais evidente nestes territórios, mas em contrapartida existe um potencial crescimento.

Arrisco mesmo dizer que se ambicionamos crescer enquanto país, importa deixar de encarar estas regiões com timidez e apostar na valorização deste potencial.

 

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