“Há muitas áreas de Portugal onde podemos ter incêndios graves”: especialista de Pedrógão Grande deixa alerta nove anos depois

Domingos Xavier Viegas, investigador da Universidade de Coimbra, falou à ‘Executive Digest’ sobre o nono aniversário do trágico incêndio que vitimou 66 pessoas

Francisco Laranjeira

Nove anos depois de Pedrógão Grande, Portugal está mais preparado para enfrentar incêndios extremos. Mas não está imune a uma nova tragédia. O aviso é de Domingos Xavier Viegas, investigador da Universidade de Coimbra e um dos especialistas que estudou os fogos de 2017, que falou à ‘Executive Digest’ para assinalar a efeméride e deixar sérios avisos para este verão.

O incêndio de 17 de junho de 2017 deflagrou às 14h43, em Escalos Fundeiros, Pedrógão Grande, e alastrou com violência a Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e outros concelhos. Provocou 66 mortos, 253 feridos, sete dos quais graves, destruiu cerca de meio milhar de casas e atingiu perto de 50 empresas.

Mais de dois terços das vítimas mortais, 47 pessoas, seguiam em viaturas e ficaram cercadas pelas chamas na EN 236-1 ou em acessos a esta estrada. O fogo só foi extinto a 24 de junho, depois de atingir cerca de 53 mil hectares, incluindo 20 mil hectares de floresta.

“De modo geral, está mais bem preparado”, afirma Domingos Xavier Viegas, quando questionado sobre o Portugal de hoje face ao país que sofreu os incêndios de 2017. Mas a resposta vem acompanhada de uma ressalva decisiva: “Não quero dizer que, se acontecer um evento semelhante ao de Pedrógão, tudo corra bem”.

“Não estamos nunca completamente preparados”

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Para o investigador, há incêndios cuja potência ultrapassa a capacidade de supressão. Nesses casos, o problema deixa de ser apenas ter mais meios no terreno. A prioridade passa a ser proteger pessoas, antecipar comportamentos do fogo, organizar forças e evitar que a população tome decisões que a coloquem em perigo.

“São incêndios com uma potência superior à capacidade de supressão”, explica. “Não estamos nunca completamente preparados para os enfrentar.”

A Comissão Técnica Independente descreveu o incêndio de Pedrógão como provavelmente aquele que, em Portugal, mais energia libertou e mais rapidamente. Chegou a atingir um máximo de 4.459 hectares ardidos numa só hora, com fenómenos extremos de vorticidade e projeção de material incandescente a curta e longa distância.

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É por isso que Domingos Xavier Viegas insiste na preparação da população. O especialista considera que hoje existe maior sensibilização para evitar comportamentos que possam colocar vidas em risco. Também acredita que as autoridades têm mais capacidade para preparar e organizar meios, combater onde for possível e reduzir a probabilidade de acidentes pessoais.

O risco não vive só em Pedrógão

A memória de 2017 ficou associada a Pedrógão Grande, mas o risco de incêndios extremos não pertence apenas àquele território. Para Domingos Xavier Viegas, um fogo daquela gravidade pode ocorrer em muitas partes do país, desde que se juntem vegetação, terreno, vento e condições meteorológicas favoráveis.

“Infelizmente, há muitas áreas de Portugal onde podemos ter incêndios graves e com consequências graves”, alerta.

O investigador evita traçar um mapa fechado do perigo, mas lembra que grande parte do território nacional está coberta por floresta, matos e vegetação capaz de suportar a propagação de incêndios intensos. Em determinadas condições, como aconteceu em Pedrógão, o vento e outros fatores podem acelerar e intensificar a progressão das chamas.

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“Podem não ser situações muito comuns, mas a probabilidade de termos este tipo de incêndios graves tem vindo a aumentar”, afirma.

O aviso é incómodo porque desloca a discussão da memória para o presente. Pedrógão não deve ser visto apenas como aquilo que aconteceu num lugar específico, num dia específico. Deve ser lido como uma possibilidade que pode voltar a manifestar-se noutros pontos do país.

Quando o fogo entra nas zonas urbanas

O risco também não se limita à floresta. Em Portugal, a construção em alvenaria reduz a probabilidade de cenários urbanos semelhantes aos que se veem noutros países, mas Domingos Xavier Viegas não exclui que incêndios graves possam afetar áreas urbanas ou periurbanas.

“Uma situação de incêndio grave pode ocorrer em ambiente urbano”, afirma.

O especialista recorda o que aconteceu em setembro de 2024 na região de Aveiro, em particular na zona de Albergaria, onde os incêndios atingiram áreas urbanas e causaram destruição. Não se trata, por isso, apenas de proteger povoamentos isolados no meio da floresta. Trata-se também de pensar a separação entre vegetação e habitações, entre zonas florestais e aldeias, entre combustível acumulado e espaços onde vivem pessoas.

Esse ponto ganha especial relevância num país onde muitas localidades estão rodeadas por vegetação, com populações envelhecidas, territórios abandonados e capacidade limitada para fazer limpeza regular. O fogo extremo não respeita a fronteira administrativa entre o rural e o urbano. Quando ganha velocidade, procura combustível, vento e continuidade.

O que Pedrógão mostrou

Pedrógão não foi apenas um incêndio. Foi um ponto de rutura. Durante uma semana, o fogo atingiu municípios dos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco, entre eles Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Góis, Penela, Pampilhosa da Serra, Sertã, Alvaiázere, Ansião, Arganil e Oleiros.

Arderam 261 habitações permanentes, cerca de 200 segundas habitações e mais de uma centena de casas devolutas. Foram destruídas empresas e afetados empregos de 372 pessoas.

Os prejuízos diretos foram estimados em 193,5 milhões de euros. As medidas de prevenção e relançamento económico previstas ultrapassavam os 303 milhões. Só na floresta, os danos foram calculados em mais de 83 milhões de euros. Nas habitações, ultrapassaram 27,6 milhões. Na indústria e turismo, aproximaram-se de 31,2 milhões.

Mas houve também a dimensão que os números não conseguem fechar: a estrada onde tantos tentaram fugir, os lugares que desapareceram em minutos, as comunidades que passaram a viver com a memória do fumo, das sirenes e das comunicações falhadas.

Entre as 19h00 de 17 de junho e as 09h00 do dia seguinte, o SIRESP processou 115.255 chamadas em 16 estações-base, uma média de 8.233 por hora. Cerca de 8%, mais de 10 mil chamadas, não foram feitas à primeira tentativa devido à saturação da rede.

O verão que volta a pôr o país à prova

A pergunta final é inevitável: poderá Portugal estar, daqui a seis meses ou um ano, a estudar outro grande incêndio?

Domingos Xavier Viegas responde com prudência: “Oxalá que não, mas essa possibilidade não se pode descartar.”

O investigador volta ao ponto essencial. Portugal está mais consciente, mas continua vulnerável. A probabilidade de incêndios graves mantém-se. E, se não houver cuidado por parte dos cidadãos, sobretudo em atividades que possam causar ignições, o risco permanece.

A prevenção não começa no dia em que o fogo aparece no horizonte. Começa antes, na forma como se gere a vegetação, como se limpam terrenos, como se organizam evacuações, como se mantêm comunicações, como se informa a população e como cada pessoa sabe o que fazer quando o incêndio se aproxima.

Pedrógão mostrou o preço da impreparação perante um fenómeno extremo. Nove anos depois, o país sabe mais. A questão é se sabe o suficiente — e se faz o suficiente — antes de o próximo incêndio deixar de ser uma hipótese e passar a ser uma emergência.

As vítimas pedem prevenção e vigilância

Esta quarta-feira, a Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande volta a assinalar o aniversário da tragédia. A sede da associação, na antiga escola primária da Figueira, freguesia da Graça, abre às 16h00. Às 17h45, decorre uma homenagem no Memorial às Vítimas dos Incêndios, seguindo-se uma missa na Igreja Paroquial de Vila Facaia.

A associação pede mais prevenção, mais vigilância e maior preparação das populações. O alerta chega num território onde a memória não é abstrata: está nas casas reconstruídas, nas que demoraram a regressar, nas empresas perdidas, nas famílias que ficaram sem alguém e na estrada onde a maioria das vítimas mortais foi encontrada.

O Memorial às Vítimas dos Incêndios de 2017 foi inaugurado em 15 de junho de 2023 junto à EN 236-1, em Pobrais, Pedrógão Grande. Inscreve os nomes das 115 vítimas mortais dos incêndios desse ano: as 66 de junho e as 49 dos fogos de outubro na região Centro, que provocaram ainda cerca de 70 feridos, a destruição total ou parcial de cerca de 1.500 casas e mais de 500 empresas.

Nove anos depois, Pedrógão continua a ser uma ferida e um aviso. Portugal está mais preparado, mas não está protegido de tudo. E a principal lição talvez seja essa: o fogo extremo pode voltar. A diferença estará no que o país fizer antes de ele chegar.

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