Há exatamente 88 anos chegavam os primeiros prisioneiros políticos ao Tarrafal

Foi a 29 de outubro de 1936 que 152 prisioneiros desembarcaram na baía da Vila do Tarrafal, após doze dias de viagem no navio Luanda, oriundos de Lisboa.

Pedro Gonçalves
Outubro 29, 2024
7:00

Hoje, assinalam-se 88 anos desde a chegada dos primeiros presos políticos ao campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Foi a 29 de outubro de 1936 que 152 prisioneiros desembarcaram na baía da Vila do Tarrafal, após doze dias de viagem no navio Luanda, oriundos de Lisboa. Estes homens, entre os quais se contavam participantes da Revolta dos Marinheiros e do levante operário da Marinha Grande, foram os primeiros a enfrentar as terríveis condições de um campo criado para castigar e quebrar os que se opunham ao regime ditatorial de Salazar.

A criação do Tarrafal resultou do Decreto-Lei n.º 26 539, de 23 de abril de 1936, que estabeleceu uma “Colónia Penal para presos políticos e sociais” na Ilha de Santiago, destinada a aqueles que se envolvessem em atividades subversivas ou que demonstrassem dificuldades em seguir as rígidas regras das cadeias comuns. O campo foi rapidamente conhecido como o “Campo da Morte Lenta”, devido às condições desumanas que lá prevaleciam, tendo-se tornado símbolo da brutalidade fascista portuguesa.

Os primeiros dias dos presos foram apenas o início de um longo martírio. O campo era marcado pela ausência de cuidados médicos, a má qualidade da alimentação e as celas insalubres. Reclamações eram respondidas com punições severas, como o confinamento na infame “frigideira” — uma cela sem janelas, onde as temperaturas chegavam aos 50ºC. Pedro Soares, em Tarrafal: Campo da Morte Lenta, descreve o sofrimento: “O calor torna-se insuportável. Os presos despem-se, mas o calor não deixa de os torturar. (…) Da picada do mosquito surge a febre, da febre vem a morte pela biliosa e pela perniciosa.”

Acolhidos com as palavras do diretor do campo, Manuel dos Reis, “quem vem para o Tarrafal vem para morrer,” os presos sabiam o que os esperava. Entre 1936 e 1954, 340 presos políticos passaram pelo Tarrafal. Destes, 32 morreram durante a reclusão, entre os quais figuras de destaque, como Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, e Mário Castelhano, dirigente sindicalista. Muitos outros, embora tenham sobrevivido, enfrentaram graves sequelas físicas e psicológicas pelo resto das suas vidas.

Em 1954, após crescente pressão internacional, o regime português foi forçado a encerrar o campo. Contudo, a paz foi temporária: em 1961, o então ministro do Ultramar, Adriano Moreira, ordenou a reabertura do Tarrafal, desta vez para aprisionar ativistas dos movimentos de libertação africanos.

Entre 1962 e 1974, o campo, agora rebatizado como “Campo de Trabalho do Chão Bom”, voltou a acolher prisioneiros, agora provenientes dos movimentos de libertação de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Nesse período, mais quatro vidas foram ceifadas pela dureza do campo, entre as quais a dos angolanos António Pedro Benge e Magita Chipóia e dos guineenses Cutubo Cassamá e Biaba Nabué.

Os sobreviventes do Tarrafal testemunham a força dos ideais e a resiliência daqueles que ali se encontravam. Justino Pinto de Andrade, um dos presos libertados apenas a 1 de maio de 1974, após o 25 de Abril, descreve a experiência: “O Tarrafal foi, para mim, uma verdadeira Escola Superior de Vida. (…) Porque a nossa era uma luta comum, independentemente dos movimentos a que pertencíamos. Comungámos na Dor, mas, também, na Esperança.” A sobrevivência e organização dos presos foi marcada pela solidariedade, utilizando um sistema de comunicação improvisado para trocar mensagens entre si e com o exterior, um esforço em que foram usadas técnicas como o código morse e métodos engenhosos como esconder mensagens em cigarros e tubos de pasta de dentes.

Hoje, ao lembrar os primeiros homens que pisaram o Tarrafal e todos os que por lá passaram, o país homenageia a resistência e coragem de todos aqueles que enfrentaram a brutalidade do regime em nome da liberdade. O legado dos que foram forçados ao “Campo da Morte Lenta” continua a inspirar novas gerações na defesa da democracia e dos direitos humanos.

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