Há demasiadas “empresas zombies” no mercado e a culpa é das taxas de juro negativas

Críticas à política monetária do BCE querem pôr fim às taxas negativas, por provocarem quedas de 18% nas margens de intermediação bancária.

Executive Digest

Um relatório da instituição espanhola Funcas alerta o BCE para pôr fim de forma ordenada às taxas negativas, por provocarem quedas de 18% nas margens de intermediação bancária, divulga o “El Pais”.

Cada vez mais vozes reclamam uma mudança na política de interesses do Banco Central Europeu (BCE). Os principais banqueiros espanhóis reiteram repetidamente as suas críticas à política monetária do BCE, assim como têm feito os seus homólogos europeus. A denúncia vem agora de Funcas, uma instituição que acaba de preparar um estudo exaustivo que será enviado ao BCE e ao Banco da Espanha.

A conclusão é nítida. O BCE deve pôr um fim à política de taxas negativas de maneira ordenada, por que gera inúmeras distorções na economia e no sector financeiro, embora a sua origem tenha ajudado a salvar os bancos e a economia da Zona Euro.

O estudo foi apresentado pelo director-geral da Funcas, Carlos Ocaña, que acredita que o debate sobre a eficácia das políticas monetárias não convencionais tanto na Europa como nos Estados Unidos da América está aberto e as críticas a essas políticas aumentaram.

O relatório argumenta, segundo o El Pais, como, na prática: “foi demonstrado que as taxas de juros negativas podem causar distorções e um mau funcionamento de muitas das actividades realizadas na banca e nos mercados financeiros, o que, por extensão, afecta toda a economia”.

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Os autores do estudo, Santiago Carbó, Pedro Cuadros e Francisco Rodríguez, acreditam que continuar com taxas de juros negativas pode aprofundar a desaceleração económica. A queda nos benefícios bancários ou das contribuições, como a manutenção de “muitas empresas zombies que deviam desaparecer” prejudicam a economia, dizem estes especialistas ao El País. Estão em causa empresas endividadas que não têm capital suficiente sequer para pagar os juros devidos aos Bancos.

Um dos objectivos para os quais o BCE optou por aumentar as taxas de juros primeiro para 0% em 2014 e depois para taxas negativas foi o crescimento do crédito. Mas, apesar da queda do preço, o crédito ainda não descolou após mais de 10 anos desde o início da queda e após o fim da crise financeira. E, como prevêem estes especialistas, não se espera um aumento a curto prazo, mesmo após a nova orientação da política monetária estabelecida em Setembro pelo então presidente do BCE, Mario Draghi, – que deixou um grande horizonte de tempo com taxas negativas. Os especialistas sustentam, que a mais recente estratégia de Draghi tem “efeitos perversos” em termos de expectativas.

No sector financeiro, a margem de intermediação caiu 18,4% em áreas com taxas negativas. Além disso, as receitas financeiras de bancos com taxas negativas caíram 43,8% e as despesas financeiras 30,3%, indicando um mecanismo de transmissão imperfeito, uma vez que são transferidas em maior medida para a receita (de forma negativa) do que as despesas (nas quais o impacto é positivo), o que se traduz numa redução das margens de intermediação.

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O estudo da Funcas analisa uma amostra de 3.155 bancos de 36 países europeus entre 2011 e 2018 e compara o que aconteceu com entidades que operam em países ou áreas monetárias com taxas negativas com outras que trabalham em ambientes do tipo positivo.

O mesmo relatório destaca ainda  que o impacto nas margens de intermediação no sector bancário é maior entre as entidades com activos, liquidez e reservas mais líquidas, bem como naqueles bancos com a maior base de depósitos de clientes. A política de taxas negativas não afecta apenas o sector bancário, mas reflecte-se na economia como um todo, se for prolongada demais.

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