Há cada vez menos casas até 300 mil euros em Portugal — e são as mais procuradas

Portugal continua a enfrentar uma forte pressão no acesso à habitação, com a oferta de casas a preços compatíveis com os rendimentos das famílias a encolher de forma expressiva

Executive Digest

Portugal continua a enfrentar uma forte pressão no acesso à habitação, com a oferta de casas a preços compatíveis com os rendimentos das famílias a encolher de forma expressiva. De acordo com os dados mais recentes do idealista, no início de 2026, apenas uma em cada três casas à venda no mercado nacional custava até 300 mil euros, precisamente o segmento onde a procura é mais intensa.

No primeiro trimestre de 2026, existiam pouco mais de 100 mil apartamentos anunciados no idealista em Portugal, menos 19% do que no mesmo período do ano anterior. A queda foi, porém, muito mais acentuada no segmento considerado mais acessível: a oferta de casas até 300 mil euros recuou 31% num ano, ficando abaixo dos 40 mil imóveis.

A redução é ainda mais marcada nas faixas de preço mais baixas. O stock de apartamentos até 210 mil euros caiu para menos de metade, agravando a escassez de opções para famílias que procuram comprar casa com recurso a crédito habitação e com limites mais ajustados aos salários praticados no país.

Mercado muda de centro

A quebra da oferta mais acessível está a alterar o equilíbrio do mercado residencial. Há um ano, as casas até 300 mil euros representavam 42% do total da oferta. No início de 2026, esse peso caiu para 36%.

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O segmento com maior expressão passou a ser o das casas entre 300 mil e 600 mil euros, que representa agora 44% do stock disponível. Já os imóveis acima de 600 mil euros continuam a ter um peso relevante, correspondendo a cerca de um quinto das casas anunciadas.

Esta dinâmica ajuda a explicar a subida dos preços da habitação para novos máximos em Portugal. Também reflete os custos elevados da construção, nomeadamente mão de obra e materiais, que dificultam a colocação de casas novas no mercado a preços mais acessíveis.

Lisboa, Faro e Funchal com menos casas acessíveis

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A realidade nacional esconde diferenças significativas entre cidades. Em 12 das 20 capitais de distrito ou regiões autónomas analisadas, os apartamentos até 300 mil euros representam pelo menos metade da oferta.

Bragança é a cidade onde este segmento tem maior peso, representando 98% das casas à venda. Seguem-se Beja, com 86%, e Guarda, com 82%. Castelo Branco, Évora, Portalegre, Viana do Castelo, Santarém, Braga, Viseu, Setúbal e Vila Real também apresentam uma presença expressiva de habitação até 300 mil euros.

Nas cidades com maior pressão imobiliária, o cenário é bem diferente. No Porto, as casas até 300 mil euros representam cerca de um terço da oferta, enquanto o segmento entre 300 mil e 600 mil euros pesa 45%. Em Lisboa, apenas 7% dos apartamentos anunciados custam até 300 mil euros, sendo que quase metade da oferta está acima dos 600 mil euros. No Funchal, este segmento acessível representa apenas 3% do stock, e em Faro 14%.

Procura concentra-se nas casas mais acessíveis

A procura continua a concentrar-se nas casas até 300 mil euros. Segundo os dados do idealista, os apartamentos entre 90 mil e 180 mil euros registaram uma média igual ou superior a dez contactos por anúncio no primeiro trimestre de 2026, a mais elevada entre todos os segmentos analisados.

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À medida que os preços sobem, o interesse médio por anúncio tende a diminuir, refletindo o facto de os imóveis mais caros caberem em menos orçamentos familiares. Ainda assim, em cidades como Lisboa, Porto, Faro, Funchal e Setúbal, também se observa procura por casas entre 300 mil e 600 mil euros, em parte por se enquadrarem nos limites da isenção parcial de IMT Jovem.

O interesse por comprar casa aumentou na generalidade das faixas de preço no último ano. No segmento mais acessível, destacam-se subidas a dois dígitos na procura por casas entre 150 mil e 270 mil euros. Mas os maiores aumentos foram registados entre 300 mil e 600 mil euros, com crescimentos superiores a 30%.

Casas mais baratas saem mais depressa

A escassez de oferta e a pressão da procura refletem-se também no tempo em que os imóveis permanecem no mercado. Os apartamentos até 300 mil euros ficaram anunciados, em média, 80 dias no primeiro trimestre de 2026, menos de três meses.

No segmento entre 300 mil e 600 mil euros, o tempo médio sobe ligeiramente para 82 dias. Já nas casas acima de 600 mil euros, o prazo médio no mercado aumenta para 119 dias.

Dentro das faixas mais acessíveis, os imóveis entre 180 mil e 270 mil euros são os que saem mais rapidamente, permanecendo anunciados pouco mais de dois meses. Em Lisboa e no Porto, os apartamentos mais acessíveis também ficaram no mercado pouco mais de dois meses no início do ano.

Medidas do Governo ainda sem efeito imediato

O mercado aguarda a entrada em vigor do IVA a 6% na construção, prevista para julho, e já conta com a isenção de IMT e Imposto do Selo para jovens até 35 anos. Estas medidas fazem parte do pacote fiscal do Governo publicado em Diário da República a 20 de maio.

A simplificação do licenciamento urbanístico, através da revisão do Regime Jurídico da Urbanização e Edificação, deverá também contribuir para acelerar a entrada de novos projetos no mercado.

Ainda assim, os dados mostram um mercado cada vez mais polarizado, onde as casas acessíveis desaparecem depressa e a oferta continua a encolher. Até que novas medidas produzam efeitos concretos, o problema para muitas famílias já não é apenas o preço: é a falta de casas disponíveis dentro do orçamento.

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