A detenção de Nicolás Maduro e a sua transferência para uma prisão em Nova Iorque marcaram um ponto de viragem na política dos Estados Unidos para a América Latina e colocaram novos alvos no centro da estratégia de Washington. O presidente colombiano, Gustavo Petro, e a cúpula do regime cubano surgem agora como os próximos visados de Donald Trump e do secretário de Estado, Marco Rubio, numa ofensiva que poderá redesenhar o equilíbrio político da região.
Ainda em Dezembro, Donald Trump já havia avisado que, “assim que Maduro caísse”, Gustavo Petro “seria o seguinte”. A declaração ganhou novo peso no sábado, durante uma conferência de imprensa em que o presidente norte-americano acusou directamente o chefe de Estado colombiano de permitir a existência de laboratórios e fábricas de cocaína no seu país. “Tem laboratórios de cocaína, tem fábricas onde produz cocaína. Estão a enviá-la para os Estados Unidos, por isso sim, tem de tomar cuidado”, afirmou Trump, num tom abertamente ameaçador.
Gustavo Petro nunca escondeu a intenção de se colocar no radar da Casa Branca. O confronto com Trump surge como uma estratégia política que lhe permite assumir um papel de liderança entre os governos alinhados com o enfraquecido Foro de São Paulo e entre países que rejeitam a influência de Washington. Ao mesmo tempo, esta tensão externa poderá beneficiar internamente o seu partido, ao reforçar um discurso anti-intervenção norte-americana capaz de impulsionar a candidatura presidencial de Iván Cepeda.
Perante as palavras de Trump, Petro respondeu de forma lacónica: “Não estou preocupado com nada”. No entanto, horas depois, publicou na rede social X uma imagem perturbadora do cadáver de um militar venezuelano, com a cabeça destroçada por disparos, acompanhada da legenda: “Como em Gaza, o sangue derramado na pátria de Bolívar”. A publicação revelou-se enganadora, uma vez que a fotografia era antiga. Leitores corrigiram a informação, esclarecendo que o sargento-mor José Ramón Morffe morreu a 13 de Maio de 2025, na sequência de disparos acidentais.
Lista Clinton e acusações de narcotráfico
A escalada de tensão entre Bogotá e Washington intensificou-se após a inclusão de Gustavo Petro, da sua ex-mulher, Verónica Alcocer, e do seu filho, Nicolás Petro, na chamada Lista Clinton, por alegadas ligações ao narcotráfico. Desde então, o presidente colombiano tem insistido que nenhum governante combateu tanto o tráfico de droga como ele, desviando a responsabilidade para os Estados Unidos, que acusa de serem uma sociedade “gananciosa e infeliz”, responsável pelo consumo de estupefacientes e pela expansão do problema.
Petro nega igualmente que, durante o seu mandato, a Colômbia tenha atingido máximos históricos na área de cultivo de coca e na produção de cocaína. No entanto, dados da Oficina das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, relativos a 2023, indicam 253.090 hectares de plantações de coca e uma produção de 3.708 toneladas de cocaína. As apreensões também atingiram um valor recorde de 2.275 toneladas. Especialistas alertam que todos estes indicadores continuaram a aumentar.
A queda de Nicolás Maduro foi recebida de forma positiva por sectores da oposição colombiana. O antigo presidente Iván Duque afirmou que “para a Colômbia, que Maduro já não esteja no poder na Venezuela e que os Estados Unidos liderem a transição para a democracia nesse país é uma grande notícia”, acrescentando que isso contribuirá para impedir que “a ditadura esteja a conspirar para manter o petrismo no poder”.
Marco Rubio endurece discurso contra Cuba
Paralelamente, Marco Rubio dirigiu ameaças veladas à liderança cubana, sublinhando o papel de Havana no apoio ao regime venezuelano. “Um dos maiores problemas dos venezuelanos é que deveriam declarar a sua independência de Cuba”, afirmou, acusando o regime castrista de tentar “colonizar” a Venezuela do ponto de vista da segurança. Rubio acrescentou que, se estivesse no Governo cubano, estaria “pelo menos um pouco preocupado”, classificando os seus dirigentes como “homens incompetentes e senis” e afirmando que a segurança de Maduro e os serviços de espionagem estavam “cheios de cubanos”.
A grave crise económica e social em Cuba, agora agravada pela queda de Maduro, poderá provocar mudanças profundas no panorama político latino-americano, especialmente após recentes vitórias eleitorais da direita na Bolívia e no Chile. Gustavo Petro vê-se cada vez mais isolado. Na América do Sul, resta-lhe o apoio de um Lula da Silva enfraquecido e sem o protagonismo do seu primeiro mandato. No espaço hispânico, à excepção da presidente mexicana Claudia Sheinbaum, os seus aliados tradicionais desapareceram. Também já não pode contar com o apoio das pequenas ilhas caribenhas, anteriormente influenciadas pelo chavismo através do fornecimento de petróleo em votações na Organização dos Estados Americanos.
Cuba como objectivo central de Washington
Para Francisco Santos, antigo embaixador colombiano em Washington e ex-vice-presidente do país, o cerco a Petro faz parte de uma estratégia mais ampla. “Estão a recolher informação sobre como Chávez e Maduro financiaram a esquerda colombiana que está no poder. Mas é preciso ter presente que o objectivo fundamental de Marco Rubio é Cuba”, afirmou. Segundo Santos, se o chavismo sobreviver, Havana continuará a receber o petróleo de que necessita para manter a economia funcional. Caso contrário, o país enfrentará apagões prolongados e uma crise ainda mais profunda.
O ex-diplomata sublinha que o regime castrista vive “a pior crise da sua história” e que o envio massivo de petróleo por parte do México, sob liderança de Sheinbaum, funciona como um balão de oxigénio. “Sem isso, poderia rebentar uma revolução. Cuba continua a ser importante para a esquerda por integrar uma narrativa romântica que defende que o comunismo funciona, algo em que alguns ainda acreditam, como Petro, apesar de ser um fracasso absoluto”, concluiu.
Também o académico e ex-diplomata colombiano Julio Londoño Paredes considera inevitável o colapso do regime cubano. “Cuba vai cair pelo seu próprio peso e num curto espaço de tempo. Se estivesse no Governo de Havana, estaria muito preocupado. Gustavo Petro também deveria deixar de lançar adjectivos ofensivos e ameaças contra Trump, porque pode acabar por ter a mesma sorte [que Maduro]”, alertou.














