Guerra no espaço em marcha? Satélites russos seguem de muito perto os europeus… e fazem soar os alarmes

Num artigo publicado no ‘The Conversation’, o analista de Defesa Aleix Nadal, da RAND Europe, explica que autoridades europeias voltaram recentemente a soar o alarme sobre a intercetação de comunicações de satélites europeus pela Rússia

Francisco Laranjeira

O espaço tornou-se um novo palco da rivalidade geopolítica entre potências. Muito acima da Terra, satélites russos têm acompanhado de perto equipamentos europeus durante anos, levantando suspeitas de espionagem e alertando autoridades para possíveis vulnerabilidades nas infraestruturas espaciais do Velho Continente.

Num artigo publicado no ‘The Conversation’, o analista de Defesa Aleix Nadal, da RAND Europe, explica que autoridades europeias voltaram recentemente a soar o alarme sobre a intercetação de comunicações de satélites europeus pela Rússia. O fenómeno, no entanto, não é novo: desde a invasão russa da Ucrânia em 2014, dois satélites russos têm seguido discretamente outros satélites em órbita.

Essas aproximações, que por vezes ocorrem a menos de cinco quilómetros de distância, levantam preocupações que vão além da simples observação.

Satélites russos “seguem” equipamentos europeus

Os dois satélites em causa — ‘Luch/Olymp-1’ e ‘Luch/Olymp-2’, lançados em 2014 e 2023 — são considerados satélites de “inspeção” altamente secretos. A sua missão aparente é aproximar-se de satélites de outros países para analisar possíveis vulnerabilidades técnicas.

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Segundo o ‘The Conversation’, este tipo de manobra, conhecido como operações de proximidade e encontro (RPO, na sigla em inglês), tornou-se cada vez mais comum na órbita geoestacionária, onde muitos satélites permanecem praticamente fixos sobre o mesmo ponto da Terra.

Nem todas estas operações são suspeitas. Em teoria, a mesma tecnologia pode ser usada para reabastecer satélites, reparar equipamentos ou remover detritos espaciais. O problema é que essas capacidades têm dupla utilização, podendo servir tanto fins civis como militares.

Quando a inspeção se transforma em espionagem

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O comportamento dos satélites russos, no entanto, levanta dúvidas.

Ao contrário de missões de inspeção normais — que passam rapidamente por um alvo — os satélites Luch permanecem frequentemente durante meses ao lado do mesmo satélite, aproximando-se repetidamente.

Essa postura sugere um papel diferente: interceção de sinais.

Segundo o analista da RAND Europe, estes satélites funcionam essencialmente como sistemas de inteligência de sinais (SIGINT). Ao posicionarem-se entre um satélite e a estação terrestre que o controla, podem captar transmissões e intercetar comunicações.

Entre os potenciais alvos estariam satélites operados pela Eutelsat e pela Intelsat, utilizados por vários clientes, incluindo forças armadas europeias, para comunicações seguras.

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Não são armas — mas revelam vulnerabilidades

Apesar das preocupações, estes satélites não são considerados armas antiespaciais.

Segundo o autor do artigo, analisados isoladamente, os veículos Luch devem ser vistos sobretudo como plataformas de vigilância, que recolhem informação mas não têm necessariamente capacidade direta para destruir ou incapacitar satélites.

Ainda assim, o problema está no contexto geopolítico.

As operações espaciais russas devem ser interpretadas como parte de uma estratégia mais ampla destinada a obter vantagem estratégica — seja no conflito com a Ucrânia, seja na tentativa de pressionar países europeus a reduzirem o seu apoio a Kiev.

O risco de ataques no futuro

Há outro motivo de preocupação: os satélites russos podem ter intercetado links de comando, as transmissões que permitem controlar satélites a partir da Terra.

Se esses sinais forem captados e analisados, teoricamente poderiam ser imitados ou replicados, permitindo interferir no funcionamento de satélites no futuro.

O cenário lembra a estratégia russa observada noutro domínio crítico: os cabos submarinos de telecomunicações. Durante anos, Moscovo mapeou discretamente infraestruturas ocidentais antes de surgirem incidentes de sabotagem e cortes em cabos de fibra ótica.

Da mesma forma, as manobras realizadas pelos satélites Luch podem representar uma fase de reconhecimento de vulnerabilidades.

Europa começa a reagir

Perante este cenário, alguns países europeus defendem uma resposta mais firme.

Uma das primeiras medidas foi tornar públicas as atividades suspeitas em órbita, algo que historicamente raramente acontecia. A transparência pode ajudar a expor e deslegitimar estas operações perante a comunidade internacional.

Ao mesmo tempo, vários países europeus — incluindo Reino Unido e Alemanha — têm defendido o desenvolvimento de capacidades de contraespaço, sistemas destinados a proteger satélites e responder a ameaças orbitais.

A nova fronteira da segurança europeia

A dependência da Europa de infraestruturas espaciais é cada vez maior. Satélites são essenciais para comunicações militares, navegação, meteorologia, economia digital e serviços de emergência.

Por isso, especialistas alertam que a segurança orbital deve passar a ser tratada como parte central da estratégia de defesa europeia.

Num mundo em que a competição entre potências se estende cada vez mais para além da Terra, proteger satélites pode tornar-se tão importante quanto proteger territórios ou redes de energia.

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