A invasão da Ucrânia pela Rússia, ordenada pelo presidente Vladimir Putin há exatamente um mês, marcou uma mudança de época – segundo diversos analistas, o conflito é um ‘turning point’ da mesma amplitude do que o fim da II Guerra Mundial ou a queda do Muro de Berlim.
A guerra trazida para o território ucraniano, às portas da União Europeia, fez do bloco dos 27 um ator fundamental no cenário internacional, explicou o jornal espanhol ‘RTVE’ – os países da UE demonstraram uma unidade incomum e pela primeira na sua história vão financiar a compra de armas letais para nações em conflito. Segundo diversos analistas, após esta invasão, os Estados Unidos vão continuar a desempenhar um papel relevante a nível mundial, embora cada vez mais ‘ameaçados’ pelo crescimento da China. A Rússia também terá esse papel mas sem “condições para desempenhar um papel de liderança”, segundo explicou Isidro Sepúlveda, professor de História Contemporânea da Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED), em Madrid.
Opinião partilhada por diversos especialistas que aponta que haverá um antes e um depois deste conflito, lançado por Putin a 24 de fevereiro, sob o manto de “operação militar especial”.
François Heisbourg, analista sénior do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, afirmou, no seminário ‘Guerra e Paz no Século XXI’, realizado no Centro de Análise Internacional de Barcelona (CIDOB) que a guerra na Ucrânia deve ser encarada “como uma mudança de época” – nesse sentido, salientou que nos últimos 75 anos na Europa ocorreram “três grandes reviravoltas”. “Uma no final dos anos 1940, outros no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, e agora temos outra da mesma magnitude”, apontou, recordando o fim da II Guerra Mundial e a queda do Muro de Berlim.
No mesmo seminário, o professor de Política e Assuntos Internacionais da Universidade de Princeton (Estados Unidos), John Ikenberry, assegurou que “a invasão de Putin é realmente uma mudança sísmica na ordem mundial” e sublinhou que a Rússia “está a tentar criar um tipo diferente de ordem internacional”, com o objetivo de “construir uma esfera de influência eurasiana em seu torno”. No entanto, segundo o especialista, temos visto “o efeito oposto, um momento em que as democracias liberais têm a oportunidade de dar uma nova vida à ordem liberal ocidental”.
A guerra na Ucrânia, segundo Sepúlveda, fará surgir novas potências. “Durante a Guerra Fria havia duas superpotências. Quando a União Soviética desapareceu, apenas os EUA permaneceram. Agora a Rússia quer ser um dos três, a União Europeia quer ser um dos quatro e a Índia exatamente igual”, explica o especialista, acrescentando: “Vamos ver quantos agentes internacionais de alto nível permanecem na nova ordem.”
A União Europeia, bloco de países que até agora teve uma relativa influência e sempre seguindo os passos dos Estados Unidos, parece ter desenvolvido a capacidade de se fortalecer diante de circunstâncias imprevistas: desde o fim da União Soviética ao Brexit, passando pela pandemia da Covid-19. A guerra na Ucrânia não foi menor e o bloco europeu tomou decisões de grande importância com rapidez e sob uma unidade incomum, mesmo apesar das dificuldades, uma vez que algumas das sanções impostas vão afetar também as economias nacionais dos 27. “A União Europeia fez o que às vezes faz na sua história, que é avançar em tempos de crise”, referiu Heisbourg.
Segundo o diretor de pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), Jeremy Shapiro, com a invasão russa da Ucrânia “vimos uma unidade transatlântica maior do que alguma vimos em muito tempo” e a União Europeia “cresceu em maior grau como ator geopolítico”. “Putin fez mais pela integração da União Europeia do que qualquer outro. Esta é uma grande mudança cultural que terá efeitos duradouros”, afirmou. A Europa sempre foi militarmente dependente de Washington mas agora, pela primeira vez em sua história, os 27 vão financiar a compra de armas letais para os países atacados – uma grande mudança para um bloco que foi criado originalmente para defender a paz.
“Há um desejo de desenvolver um papel muito mais claro como potência política e militar do que há alguns anos”, explicou Gracia Abad, professora de Relações Internacionais da Universidade de Nebrija, em Madrid. “Muitos especialistas argumentam que à UE, no desenvolvimento das suas capacidades e poder, especialmente no campo militar, faltou-lhe potencial e vontade. Parece que a situação atual lhe deu essa vontade.”
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética eram as duas grandes potências do planeta. Depois do fim do conflito, Washington permaneceu como a única superpotência mas agora cada vez mais ameaçado pelo crescimento da China. Shapiro explicou que “a política dos EUA estava focada na China porque entendia que era a sua principal ameaça”. “Washington vai continuar a pedir à União Europeia que se levante e assuma a responsabilidade pela segurança na sua região e lide com o problema russo com menos ajuda dos Estados Unidos”, revelou.
“Aconteça o que acontecer”, garantiu Gracia Abad, “Moscovo vai sofrer muito depois desta agressão. Tem sido uma opção terrivelmente mortal para os interesses da Rússia. As consequências económicas possivelmente durarão décadas”, finalizou. “A Rússia desceu muitos degraus enquanto a China vai subir muitos outros.”
Nesse sentido, Sepúlveda indicou que o futuro do presidente Putin “vai depender muito da duração da guerra”. “Se o cerco de Kiev terminar e conquistar todo o leste e sul da Ucrânia em dois meses, seria uma grande vitória para Putin e teria alguma continuidade. Se isso não der certo e se tentar ocupar toda a Ucrânia com a resistência que vai ter, isso significaria não só o desaparecimento de Putin, mas o fim do seu regime”, referiu. “Putin fez o papel de Pedro ‘O Grande’ e entrou nas páginas da história russa como um novo conquistador, mas estava a calcular uma guerra de uma semana, que até permitiria outras aventuras depois. Dado o resultado e a má condução da guerra, obviamente não haverá novas aventuras”, frisou.













