Guerra com o Irão reduz quase para metade os stocks de mísseis de precisão dos EUA e cria “risco a curto prazo”

Analistas e fontes familiarizadas com avaliações do Pentágono admitem que o desgaste foi profundo, com impacto em vários dos sistemas mais sensíveis do arsenal americano

Francisco Laranjeira

A guerra com o Irão terá consumido uma parte substancial dos principais stocks de mísseis dos Estados Unidos, aumentando as dúvidas sobre a capacidade de Washington para responder a outro conflito de grande dimensão num futuro próximo. Segundo o ‘Kyiv Post’, analistas e fontes familiarizadas com avaliações do Pentágono admitem que o desgaste foi profundo, com impacto em vários dos sistemas mais sensíveis do arsenal americano.

Entre os dados mais impressionantes está o consumo de pelo menos 45% dos mísseis de ataque de precisão PrSM em apenas sete semanas, de acordo com uma análise do CSIS. A pressão também terá sido muito forte sobre os sistemas de defesa aérea, com pelo menos metade dos intercetores THAAD e quase 50% dos mísseis Patriot utilizados durante a campanha, em números que, segundo as fontes citadas, coincidem com dados confidenciais do Pentágono.

Outras munições avançadas também sofreram quebras relevantes. O relatório aponta para um consumo de cerca de 30% dos mísseis de cruzeiro Tomahawk, mais de 20% dos Joint Air-to-Surface Standoff Missile e aproximadamente 20% dos interceptores SM-3 e SM-6. O retrato geral é o de um esforço militar que drenou uma fatia muito relevante do poder de fogo americano em pouco tempo.

O alerta dos analistas é que esta redução cria um “risco a curto prazo” se os Estados Unidos forem forçados a enfrentar outra guerra importante em breve. O CSIS considera que os stocks atuais podem ainda ser suficientes para manter operações contra o Irão, mas já não chegam com a mesma folga para enfrentar um adversário de dimensão comparável, como a China.

Mark Cancian, coronel reformado dos fuzileiros navais americanos e um dos autores da análise, avisa que o esforço agora feito abriu “uma janela de maior vulnerabilidade no Pacífico Ocidental”. A reposição destes arsenais, acrescenta, poderá demorar entre um e quatro anos no caso de alguns sistemas, e ainda mais tempo se o objetivo for reconstruir stocks suficientemente amplos para um cenário de confronto de grande escala.

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Mais à frente, o ‘Kyiv Post’ sublinha que os mísseis Patriot estão entre os casos mais sensíveis. Cada intercetor custa mais de 3 milhões de dólares, cerca de 2,76 milhões de euros, e a produção continua limitada. A pressão sobre este sistema aumentou fortemente com a intensificação dos conflitos e com a necessidade de travar drones e mísseis balísticos em vários teatros ao mesmo tempo.

O Pentágono, ainda assim, tenta conter a preocupação. O porta-voz Sean Parnell garantiu que as Forças Armadas americanas “têm tudo o que precisam” para executar as missões determinadas pelo presidente e sustentou que o arsenal disponível continua suficiente para proteger o país e os seus interesses. Donald Trump também minimizou o problema, defendendo mais financiamento para munições, mas insistindo que os Estados Unidos continuam bem posicionados.

Nem todos partilham essa tranquilidade. Vários legisladores americanos começaram já a levantar dúvidas sobre a capacidade de reposição, num momento em que o Irão continua a manter uma importante capacidade de produção de drones e mísseis. A preocupação passa, sobretudo, pela matemática de uma guerra prolongada: quanto mais depressa forem consumidas as defesas aéreas, mais difícil será repor munições num prazo útil.

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O que esta guerra parece ter mostrado é que, mesmo para os Estados Unidos, um conflito de semanas pode consumir em tempo recorde armamento considerado central para outros cenários estratégicos. E isso ajuda a explicar por que razão o desgaste dos stocks já não está a ser visto apenas como um custo operacional da guerra com o Irão, mas como um sinal de vulnerabilidade para a próxima crise.

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