Seis semanas após o início dos bombardeamentos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, os efeitos económicos do conflito começam a ganhar dimensão global, sobretudo devido ao fecho do Estreito de Ormuz e à consequente perturbação no fornecimento de energia. O impacto já é descrito como um novo choque estagflacionário para a economia mundial — ainda incerto, mas com sinais de agravamento.
Segundo uma análise publicada pelo Financial Times, o choque energético associado à guerra com o Irão corresponde atualmente a cerca de metade do impacto económico provocado pela primeira fase da pandemia de Covid-19, na primavera de 2020, quando os confinamentos reduziram o consumo global de combustíveis líquidos em quase 20%.
O Estreito de Ormuz é responsável por cerca de 20% do petróleo transportado diariamente no mundo. Num cenário sem qualquer mitigação, o seu encerramento equivaleria, em termos de oferta, a um choque da dimensão da Covid-19. No entanto, existem mecanismos de compensação parcial.
O consumo global de petróleo ronda os 100 milhões de barris por dia, dos quais 20 milhões transitavam por Ormuz. A Arábia Saudita pode redirecionar entre 3 a 5 milhões de barris diários através do oleoduto Abqaiq-Yanbu até ao Mar Vermelho. Os Emirados Árabes Unidos conseguem acrescentar cerca de 700 mil barris por dia via oleoduto até ao Golfo de Omã. O Irão, por sua vez, continua a permitir a passagem limitada de navios e poderá utilizar o terminal de Jask, localizado fora do estreito. A suspensão de voos para o Médio Oriente reduz ainda o consumo global em cerca de 1 milhão de barris diários.
Com estas compensações, o choque efetivo na oferta é estimado entre 10 e 15 milhões de barris por dia, o que representa aproximadamente dois terços do impacto registado durante a pandemia. Considerando reservas estratégicas e ajustamentos adicionais, o efeito global aproxima-se atualmente de metade do choque da Covid-19.
Reservas estratégicas e produção adicional
Os países membros da Agência Internacional de Energia acordaram libertar 400 milhões de barris das reservas estratégicas. Acresce que, no último ano, a produção mundial superou o consumo, e as reservas globais observadas atingem 8,21 mil milhões de barris — o valor mais elevado desde a pandemia.
Está ainda prevista uma subida de cerca de 1 milhão de barris diários na produção fora do Golfo em 2026. Ainda assim, mesmo com estes amortecedores, o choque permanece significativo.
Preços do petróleo, gás e combustíveis refinados
Para equilibrar oferta e procura, seria necessário reduzir o consumo em cerca de 10%, o que, com uma elasticidade-preço da procura estimada em 0,1, implicaria uma subida aproximada de 100% no preço do petróleo.
Até ao momento, o petróleo bruto e o gás natural europeu subiram cerca de 60%. Contudo, os mercados continuam a antecipar que a crise será temporária. Os contratos de futuros do gás indicam uma perturbação mais prolongada.
Importa sublinhar que os consumidores não utilizam petróleo bruto, mas sim produtos refinados. E é precisamente nesses produtos que o impacto está a ser mais acentuado. Os preços grossistas do gasóleo na Europa aproximam-se já dos 150 dólares por barril equivalente.
O diferencial conhecido como “3-2-1 crack spread”, que mede a margem das refinarias ao comparar o valor de dois barris de gasolina e um de gasóleo com um barril de crude, passou de 23% no início da guerra para 56% na semana passada. As margens aumentaram devido ao receio de escassez física de gasóleo e combustível de aviação e à menor eficiência das refinarias, que não conseguem obter os tipos de crude ideais para as suas configurações.
Assim, embora o preço do crude ainda não reflita plenamente a gravidade da situação, os combustíveis refinados já incorporam grande parte do choque.
Impacto macroeconómico e riscos de estagflação
Até agora, os efeitos macroeconómicos visíveis são limitados. No entanto, o cenário aponta para um choque estagflacionário — combinação de crescimento fraco com inflação elevada — num momento em que a política monetária dispõe de margem reduzida para responder.
No Reino Unido, estima-se um impacto negativo equivalente a 0,7% do PIB, repartido entre famílias e empresas. Países importadores de energia enfrentam efeitos semelhantes, ajustados ao grau de dependência de combustíveis fósseis. Os Estados Unidos, enquanto pequeno exportador líquido de energia, encontram-se numa posição distinta, podendo teoricamente redistribuir lucros extraordinários das petrolíferas para proteger os consumidores — embora não haja sinais de que a administração de Donald Trump pretenda fazê-lo.
Reação dos mercados e bancos centrais
Após quase seis semanas de conflito, as expectativas de inflação implícitas nos mercados obrigacionistas norte-americanos subiram 0,3 pontos percentuais para os próximos dois anos e 0,18 pontos percentuais num horizonte de quatro anos — aumentos considerados moderados.
Na Europa, a subida é mais expressiva: as expectativas de inflação anualizada para dois anos aumentaram 1 ponto percentual na Zona Euro e 1,26 pontos percentuais no Reino Unido, com maior persistência ao longo da década.
A experiência da invasão russa da Ucrânia, em 2022, mostrou que os mercados subestimaram o impacto inflacionista inicial. Por isso, os bancos centrais enfrentam um dilema: avaliar se famílias e empresas tentarão proteger rendimentos — alimentando uma espiral inflacionista — ou se reduzirão o consumo de forma acentuada, aprofundando uma recessão.
Os indicadores de confiança dos consumidores estão a recuar na Europa, embora menos do que em 2022. Nos Estados Unidos e no Japão, registam subida.
Perante este cenário, o risco inflacionista parece, para já, mais preocupante do que o risco de estagnação. Contudo, a evolução do conflito e a eventual reabertura do Estreito de Ormuz serão determinantes para definir a verdadeira dimensão deste novo choque económico global.














